CONTEMPORÂNEO // Festival Internacional de Dança do Recife abraça propostas das mais variadas, em vários palcos da cidade
Recomendar uma atração do Festival Internacional de Dança do Recife, que até o próximo sábado vive sua 13ªedição, é o mesmo que apontar para uma caixinha de surpresas. Num momento em que a dança trilha seu caminho a partir da diversidade de propostas dos grupos e intérpretes, é complicado avaliar como será a recepção de uma coreografia ou espetáculo pelo público antes que ele seja visto, por mais que existam explicações sobre a idéia do artista ou informações sobre o currículo que ele construiu até ali. Excetuando a companhia de Maguy Marin, um dos ícones da dança na França e que fará sua participação com Umwelt, amanhã, no Santa Isabel, vamos assistir aos outros convidados um tanto sem saber o que encontraremos pela frente.
No caso de Mediatriz, concebido e interpretado por três integrantes do Núcleo de Criação do Dirceu, de Teresina, no Piauí, e escalado para abrir a noite da sexta-feira, no Teatro do Parque, fomos brindados com uma montagem inusitada. Elielson Pacheco, Janaína Lobo e Weyla Carvalho quebram com o modo tradicional de vermos o bailarino no palco. Tudo o que enxergamos são partes dos corpos dos intérpretes, principalmente, do joelho para baixo, já que o restante está coberto por uma imensa lona preta. Para que o artefato ficasse imóvel, foi preciso desligar o ar-condicionado do teatro.
De início, pode passar a clássica pergunta pela mente do espectador: lá vai mais uma “viagem” sem sentido do artista? Com o passar do tempo, vamos nos deixando envolver pela movimentação, ora frenética, ora lenta, que beira os truques de ilusionismo do teatro de sombras. Das pernas e pés, a cortina desnuda os performers até a cintura e nos pegamos rindo, como na cena em que eles vestem saias vermelhas e rodopiam de um lado para o outro do palco.
Na busca pelo que existe de comum entre três corpos tão diferentes entre si – daí a razão para o título do trabalho, tomado de empréstimo do termo mediatriz, usado na matemática, os criadores do Núcleo doDirceu testam inúmeras formas de colocar nosso olhar à prova, ao ponto de não termos mais certeza de quantas pessoas se deslocam atrás do pano. Pois as mãos viram pés ou eles pulam como “sacis”, com uma perna só que – de repente – começa a se afastar da outra, arrancando risos da platéia. Também é impressionante o instante em que mostram apenas as barrigas e realizam tremidas com os músculos que lembram o virtuosismo da dança do ventre. Na trilha sonora, executada ao vivo, bolero, jazz e até mesmo o theremin, considerado um dos primeiros instrumentos da música eletrônica.
O Núcleo do Dirceu foi imaginado, há dois anos e meio, para a pesquisa e desenvolvimento das artes cênicas contemporâneas e fundado por Marcelo Evelin, que é natural de Teresina, mas morava em Amsterdam, na Holanda, há vinte anos. Possui 18 componentes, com idades entre 18 e 25 anos. E neste período já mostrou seu trabalho em diversos estados brasileiros, como Rio e São Paulo.
Atrasos – A pontualidade vem sendo deixada de lado pelo Festival de Dança, pois o menor atraso, até aquele momento, foi o da noite de sábado, quando a programação começou às 21h30, meia hora depois do previsto. Isso cansa o público em geral, mas também os próprios participantes do evento, que passam o dia nas rodas de discussão da Rede Sul-Americana de Dança, na Fundaj, que se encerram hoje. Para “desopilar”, o ponto de encontro é a Casa da Moeda, no Bairro do Recife, seguida pelo Espaço Experimental, onde aconteceu, de sexta a domingo, a partir das 22h, o projeto Compra-se Dança, idealizado pelo videasta Oscar Malta. Terá nova edição no próximo fim de semana.
postado por lidiane andrade
elielson