Natureza Morta

Por: às 23/01/2012 01:29:00

NATUREZA MORTA

Essa é uma última proposta que eu gostaria de experimentar no 1000 casas…

 

série de video-pinturas de pessoas assistindo TV.

a única coisa que se mexe é a luz que a TV projeta sobre as coisas.

as cores e o brilho mudam no ritmo da imagens transmitidas.

pintura dinâmica de uma vida engessada.

crítica da vida doméstica TVcêntrica.

tela que repõe todos os movimentos pelos seus.

máquina de paralisar gente,

de atropelar pensamento,

de gerar vazio,

e preencher com

 

dois testes filmados em jan/2010. no segundo participou o Marcelo, a Isabel Ferreira e o Edu Bonito

Natureza Morta 01 from Leo Nabuco on Vimeo.

 

Natureza morta 02 from Leo Nabuco on Vimeo.

 

pintura de gênero e natureza-morta

Na região da Holanda, recém tornada protestante, entre os séculos XVI e XVII, um senso estético muito característico ganhava um gás danado no mercado de arte. A Holanda era então organizada politicamente em províncias, controladas pela classe mercantil que bombava com a expansão do comércio mundializado que os navegadores/colonizadores estavam proporcionando. Esse contexto é essencial para dar lugar a essa pintura de temas banais, nada grandiosos, domésticos, uma pintura de coisas ou de situações não relevantes. A meteórica ascensão da burguesia marca um tempo de valorização da vida material, prática, da vida cotidiana, num momento em que o barroco assolava a Europa católica com temas e formas torcidas de um dilema interno entre a santidade dominadora e o humanismo materialista.

A ‘pintura de gênero’ tinha uma pegada “realista, comprometida com a descrição de cenas rotineiras, de temas da vida diária, de homens dedicados a seus ofícios, de mulheres no interior da casa e de festas comunitárias, no campo e na cidade.” [1] Em uma abordagem fresca e vívida, em oposição à rigidez das composições posadas que dominavam a pintura de retratos até então, era como se o pintor quisesse capturar um “instantâneo da vida”, ou “still life”, passando uma sensação de que o observador estivesse presente na situação, que parecia se desenrolar alheia à presença de um pintor. Me lembra a história do observador mosquinha, que não é notado e não influi na cena. É uma abordagem um tanto documental em um certo sentido, que oferece um relance da “vida real” na Holanda da época. “(…) O processo de paulatina autonomia da natureza-morta acompanha tanto a pintura naturalista (associada à ilustração científica) quanto a pintura de gênero, exemplarmente representada pelos artistas holandeses do século XVII e seus temas domésticos, figurados com riqueza de detalhes. Os objetos freqüentemente escolhidos para compor as naturezas-mortas são: mesas com comidas e bebidas, louças, flores, frutas, instrumentos musicais, livros, ferramentas, cachimbo, tabaco etc, todos referidos ao âmbito privado e à esfera doméstica, às vocações e aos hobbies, à decoração e ao convívio no interior da casa.” [1]

Um caso especial é o do pintor Jan Vermeer. Chamado por alguns de ‘pintor do silêncio’, trouxe pras suas telas uma proposta de contemplação da beleza sutil de uma situação qualquer pintada dentro de sua própria casa. “Com Vermeer a pintura de ‘genre’ perdeu o último vestígio de ilustração bem-humorada. Seus quadros são, na realidade, naturezas-mortas incluindo seres humanos.”[2]

 

 

Pieter Bruegel, O Velho_Casamento Aldeão, c. 1568

 

Jan Steen_A Festa de Batizado, 1664

 

Willem Kalf_Natureza-morta com a taça da Guilda dos Arqueiros de São Sebastião, lagosta e copos, c. 1653

 

Jan Vermeer_A leiteira, c. 1660

 

[1] Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais

[2] A História da Arte, E.H. Gombrich



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4 Comentários

  1. L.H. disse:
    24 de janeiro de 2012 em 14:19

    Léo, seu post me deixa com o juízo rodando. Explico: me parece contraditório você apresentar uma “ultima” proposta-ação para o 1000 Casas, logo após ter se retirado do projeto e , consequentemente, se desvinculado do Núcleo.

    Sei que estamos numa transição…tentando lidar com novos posicionamentos, acordos, escolhas. Mas acho que tá todo mundo atento pra que a maneira como estamos aqui, seja mais direta, simples, clara. Talvez até menos paradoxal…. estamos no gás do mês 1 de um novo ano, 2012, e por isso mesmo acho que precisamos sair do impasse, dos dilemas, de uma espécie de in-definição.

    Eu queria entender melhor como é esse seu post. O que ele de fato significa? Voce pretende passar a colaborar com o projeto através desta ação? Voce mesmo tendo se retirado, quer ainda experimentar uma última coisa? Isso seria uma espécie de órbita? ( tô só levantando hipoteses). Voce está apenas compartilhando um desejo que não chegou a se materializar? Enfim…. o que é esse seu movimento de “ultima ação”?

    E isso só me confunde, porque para mim, você estar aqui conosco, nas oficinas, no galpao, na cidade, nas conversas…. é sempre bom. Sério mesmo! Mas eu entendi que você não tá mais no 1000 Casas/Núcleo.

    Enfim, fiquei confusa. =)
    bjo.


    Responder
    • Leo Nabuco disse:
      24 de janeiro de 2012 em 18:13

      Te entendo lay, concordo que tudo poderia ser mais claro, mais direto, mas isso tem muito a ver com um impasse mesmo. peço desculpas pela falta de clareza esses tempos. não fui atrás de uma conversa pra entender exatamente como deveria se dar essa transição comigo, mas acabei deixando que se desse ainda pelo contato (mesmo que tudo esteja meio de cabeça pra baixo), talvez mais paradoxal, meio torto como pode ser esse post; eu ainda pensei duas vezes se me colocava desse jeito, pelo blog, mas foi a coisa mais sincera que pude fazer. Entendi sozinho que ainda estava trabalhando no mil casas esse mês, e isso tudo se trata mesmo dessa desconexão. última ação porque é a última mesmo, já que eu estou me desligando. um desejo que não se materializou e que poderia se materializar. tenho essa coisa da natureza-morta muito forte na minha cabeça, acho que é uma coisa muito próxima do engessado, é só uma vontade grande de fazer isso no mil casas porque acho que tem muito a ver. é uma proposta, mas talvez seja melhor entender mais claramente a situação antes de mais nada.


      Responder
  2. cipó alvarenga disse:
    25 de janeiro de 2012 em 11:52

    Esse é o problema Leo você entendeu sozinho, porque pra mim está claro o seu desligamento bem antes da formalidade de ter-lo feito no começo desse mês. Essa situação flutuante realmente é algo que não me interessa pra esse projeto. Nada precisa ser irrevogável, mas nesse caso já tá claro.


    Responder
  3. L.H. disse:
    25 de janeiro de 2012 em 14:13

    Léo, posso abrir meu coração? Me parece que sair e se desligar já é, já foi. Ok entendemos e já tá claro. Não deu pra seguir no projeto na etapa 2012. Acho um monte de coisa sobre isso, sobre sua saída e a saída consequente ( e não tao relacionada) da Jú logo depois. Mas tudo que acho, como vejo, sei lá…é papo pra depois, pra um dia…

    Sobre essa coisa de experimentar um desejo, uma última açao, essa proposição meio flutuante roda meu juízo…. porque entra como um bônus, umas casas que não estão dentro do acordo (da meta dos números), entra como uma ação meo descolada da discussão e do ritmo de todo mundo. Fica parecendo que VOCÊ precisa disso, que é sobre SEU processo de desconexão, e aí você diz que “entendeu sozinho que vai trabalhar mais esse mês no projeto”. Saca?

    Penso ( inclusive como alguém que experimentou muito esse lugar em 2011), que essa condição de orbitar…. de colaborar a partir de um estou “disponível aí pro que der e vier por esse tempo” …. é um lugar perverso, próximo da auto-sabotagem. Porque ele só existe, só se dá quando você pode, quando dá…. ao sabor do desejo. E ele só te isola como um satélite, que é corpo celeste, mas não é planeta ( eu tava assim). Ele não está norteado por um engajamento comum, por uma colocação que é: tenho que fazer isso em função do outro, e tô lascada, nem queria tanto, mas tenho que fazer.

    Eu também acho que orbitar é mais estável, sabe como a lua que tem essa relaçao meio magnética com a terra e tá ali, presente, as vezes quase imperceptivel….mas tá ali segura por uma especie de gravidade, num campo determinado.. Estar junto acho que é mais organico, é ecosistema de vontades. Não tem muita estabilidade, nao.

    Indo pras metaforas ( e isso nao é UMA verdade, é só colocação, ponto de vista). Pra mim a gente tava junto namorando e tal… foi complicado, mas foi bom.Mas aí…. não rolou mais e a gente terminou. Tudo bem a gente pode ficar amigo, vai se cruzar, inclusive vamos nos divertir juntos invariavelmente porque temos espaços e pessoas em comum. Mas a gente terminou, se meu ex me chamasse pra tomar um sorvete como nos “velhos tempos” não sei se ia querer….

    É só como sinto.

    =T
    bjo.


    Responder

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Uma plataforma entre 17 e 20 artistas de produção e pesquisa em artes perfomáticas que opera dentro de um sistema colaborativo, atuando em diferentes linguagens. Temos o bairro Dirceu Arcoverde, maior periferia de Teresina, Piauí, como campo de interesse e lugar de referência urbana. O projeto tem se voltado principalmente para a criação de mercado e platéia para a arte contemporânea, formação de novos criadores e pesquisa de linguagem.

Comentários

  • cipó alvarenga: o problema é que falamos muito através de metáforas e de exemplos que estão bem fora do que a coisa é...
  • Jell: rsrs acho que sofrer um pouco com esse dilema me mostra que tou vivo… acho que dá pra ser feliz mesmo...
  • Jell: se eu fosse só no mundo, acho que eu não gostaria de ser artista ou banana na penca. penso que tou mais pra...
  • Layane Holanda: Rossi queridona, boa tua visita, demais. Vamos conversar mais pelo face. Bjo do calor. =)
  • cipó alvarenga: acho que o texto está muito organizado em tópicos e não aprofunda muito o que pode aparentar uma...

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