Tem um fenômeno esquisito acontecendo. É só prestar atenção:

Em Roma dezenas de pessoas sequestram um ônibus, e armados de aparelho de som começam lá dentro uma festa. Interrogados afirmam ter o mesmo nome: Luther Blisset. Em Nova York, surgem placas sinalizando lugares históricos sombrios, como o mercado onde se leiloavam escravos. Cidades dos pampas da Amazônia são invadidas por placas de trânsito adulteradas, parequedistas de brinquedos caindo de arranha-céus e milhões de adesivos caseiros multicoloridos. Em Belo Horizonte abre-se uma loja grátis. No Norte da Itália aparece um gigantesco coelho felpudo de 55 metros de altura com tripas coloridas para fora.
A conexão entre esses acontecimentos?
Todos eles são obras de coletivos.
Assim começa a matéria do mês de junho da SUPER Interessante. Com ajuda de Ronaldo Lemos, Denis Russo Burgierman, traça um breve e delicioso panorama sobre essas organizações que surgiram nas artes visuais e tem raízes lá pelos 1910s. Aqui você tem algumas opções:
> Ir para matéria completa (vale a pena!).
> Ir para o resumo com fotos e links dos coletivos.
>Ou …UI!!! Ler o post mastigadinho, um resumão que eu não me contive em fazer da matéria do Denis!
INVERSÃO DA ORDEM
Coletivos são grupos de pessoas, geralmente sem vínculo formal, geralmente construíndo coisas grandiosas, geralmente fazendo algo que pode ser considerado arte, mas geralmente rejeitando o rótulo de “artistas”.
O Luther Blisset reunia mais de 400 artistas e escritores europeus que, entre 1994 e 1999 se dedicaram a inventar histórias falsas para enganar a imprensa e mostrar como os jornalistas são incompetentes. Depois que se desfez, 5 membros fundaram o Wu Ming, coletivo italiano que escreve romances de sucesso. O RepoHistory era um grupo dos anos 90 dedicados á recuperação de passados perdidos (das placas lá de mercado sobre escravos). O Critical Mass, sem líder e reinvindicação clara (e sem site oficial), promove invasões ciclísticas mensais há 17 anos em quase toda grande cidade do mundo. Lógica parecida com a do Improv Everywhere. O Coelho gigante, que vai ficar apodrecendo até 2025 numa montanha italiana, foi feito com lã e palha pelo coletivo austríaco Gelitin. O coelhão, pode ser escalado e explorado como se você fosse um verme num animal em decomposição. Tecer o coelho levou mais de 5 anos e a obra é um comentário sobre a decadência. (Vê no google maps)
A HISTÓRIA E A INSPIRAÇÃO
Ronaldo Lemos, conta que coletivos não são “novidade” e que num certo sentido eles sempre existiram: qualquer grupo compartilhando um processo criativo é um coletivo. Mas o fenômeno que agora explode tem raízes em 3 movimentos: o dadaísmo, o construtivismo e o surrealismo. Esses movimentos possuiam, manfestos, reuniam artistas em torno de um projeto coletivo e possuíam um cárater contestador. Não apenas propunham um estilo artístico novo, punham em questão o próprio conceito de arte (ver: Marcel Duchamp>urinol > arte conceitual).
Aííí…a 2ªGuerra começou, terminou e, ao fim ela, o mundo estava dividido em dois: capitalstas e comunistas. Era a Guerra Fria. Começaram a surgir coletivos que davam um passo além: eles não queriam apenas mudar a arte, queriam mudar o mundo.O exemplo mais radical foi o dos situacionistas, influenciados pelo marxismo, que ajudaram a começar a revolta estudantil de maio de 1968 na França. Aííí…o muro de Berlim caiu e na pós-Guerra Fria o discurso marxista foi abandonado.
Bem, hoje muitos coletivos são influenciados por um escritor americano chamado Hakim Bey, hoje com 64 anos, ele criou o conceito de “Zonas Autonômas Temporárias-TAZ “. (baixa o livro em pdf) . TAZ são espaços nos quais vigoram regras diferentes das do resto da sociedade. E em vez de tentar mudar o mundo inteiro, os coletivos passaram a criar espaços alternativos, que servem para experimentar novas formas de viver e para influenciar os outros lá fora. Cada coletivo, por esse ponto de vista, é uma TAZ, com suas regras e idéias próprias.
NEM TUDO É POLÍTICA. OU É?
Flooded McDonald’s from Superflex on Vimeo.
Os Coletivos mais interessantes são aqueles que questionam o mundo, a arte, a política, a economia, mas sem fazer discurso, apenas agindo. É o caso do Superflex, formado por três artistas dinamarqueses, sendo que um deles, Bjorn Christiansen, mora no Brasil. Tudo o que fazem é um comentário crítico sobre o capitalismo, mas não necessariamente contra ele. Um exemplo é a cerveja grátis, cuja fórmula é aberta (open source) e disponível a qualquer pessoa no mundo que queira fabricar a bebida. Eles também produzem guaraná na Amazônia. Quando os caras foram por lá perceberam que a produção era controlada por um punhado de grandes empresas de refrigerante, que pagavam pouco aos agricultores pelo fruto do guaraná. Aí resolveram lançar seu próprio refrigerante, batizado de Guaraná Power (a bienal de sampa até vetou a obra dos caras aqui, lembra?).
Os artistas fizeram contatos com produtores, montaram fábrica, articularam com comerciantes na Europa e lançaram o poduto com propaganda no Youtube ironizando a linguagem publicitária. Os lucros vão inteiramente para o agricultores da Amazônia.
Os artitas do Superflex não chamam esses projetos de “obras de arte”, eles preferem o termo “ferramentas”, porque são coisas que podem ser usadas por outras pessoas para alterar o mundo. Esses projetos estão em museus e bienais mas também são empresas, marcas, empreendimentos capitalistas. “ É um absurdo você não querer ser parte do capitalismo“, diz Bjorn. “Capitalimso é um fato. O que podemos é tentar mudar o sistema entrando nele“.
O QUARTO SETOR: AS PESSOAS
E por aqui? Os coletivos brasileiros de intervenção urbana são centenas, interessados em espalhar sua mensagem pelas ruas, em vez de abandoná-las em museus desertos. A loja grátis, instalada num mercado decadente de BH, na qual qualquer um pode deixar e pegar o que quiser, úm projeto do Ystilingue. E a idéia de coletivo está vazando da arte para o resto da sociedade. O designer mineiro Helder Araújo tem duas duas empresas – a Webcitizen, que usa a internet para aproximar governo e cidadãos, e a Spix, que faz o Busk.com, um bucador de internet que doa 1 grama de alimento a cada busca. Nenhuma dessas empresa tem sede com funcionários batendo cartão – pagam impostos e têm registro juridíco mas funcionam como coletivos. E há outros exemplos, Daniel Nunes é um jornalista que faz parte de um coletivo, cujo objetivo não é produzir nem arte nem dinheiro: é administrar um sítio de 46000 metros quadrados (tá !! rsrs).A propriedade saiu baratinha pra cada um, as tarefas foram divididas em 8 grupos e todo mundo é responsável por um desses assuntos e co-responsável por outro. Asim todo mundo é chefe e funcionário ao mesmo tempo e ninguém é superior a ninguém. É uma TAZ. Isso sem falar nas organizações virtuais como o Grupo Microfobia e o tal Hacktivismo.
O próprio jeito coletivo de trabalhar é, de certa maneira política – porque contém uma crítica ao individualismo, que é a regra do mundo de hoje. O coletivo paulista Ciadefoto ao assinar coletivamente suas fotos, incomodam um monte de fotógrafos que acham que autoria é uma conquista da profissão.
Historicamente, os únicos jeitos de empreender grandes projetos têm sido criar uma empresa, cooperativa ou apelar para o governo. Isso está mudando rápido. A internet tornou possível juntar muita gente em esforços conjuntos, sem gerentes. ” Estamos vivendo um aumento impressionante na nossa capacidade de compartilhar, cooperar uns com os outros e gerar ação coletiva”, escreveu o teórico da internet americano Clay Shirky, no livro Here Comes Everybobdy (Aí vem todo Mundo).
No fundo a Wikipedia e o Linux também são coletivos. E o Superflex, embora nao tenham nascido na internet, se beneficiam de um mundo onde é possivel articular ideias grandiosas sem governos ou empresas (ufa!!). Enfim tudo é parte de um mesmo fenômeno.
Mas e por quê? Segundo Denis, a melhor resposta foi a do Bjorn Christiasen, do Superflex. “Porque os sers humanos são animasi sociais. Vivemos melhor em grupo. Nossas ideias são melhores em grupo, porque já nascem testadas e criticadas”. Visto por esse prisma, nada indica que a pandemia de coletivos esteja em vias de enfraquecer.
L.H.
SUPER Interessante
junho-09 Denis Russo Burgierman
Já falei antes né: bijari.
5 de julho de 2009 em 19:52
só agora pude ver com calma o post.
boas referências, pra mim sem dúvida.
agora fico pensando em quantos coletivos estou atuando neste momento mesmo que inocente e inconsciente.
também me pergunto sobre a clareza do que venho fazendo dentro deste contexto-coletivo, mesmo sendo um pensamento sonre mim, é a partir dele que me sinto coletivo.