(* extraído do livro LYGIA CLARK, da série Arte Brasileira Contemporânea, edição FUNARTE – Rio de Janeiro, 1980. Os textos são da própria Lygia. Veja o filme clicando no link ao final da postagem!)
1964: CAMINHANDO
“Caminhando” é o nome que dei à minha última proposição. Daqui em diante atribuo uma importância absoluta ao ato imanente realizado pelo participante. O “Caminhando” leva todas as possibilidades que se ligam à ação em si mesma: ele permite a escolha, o imprevisível, a transformação de uma virtualidade em um empreendimento concreto.
Faça você mesmo um “Caminhando”: pegue uma dessas tiras de papel que envolvem um livro, corte-a em sua largura, torça-a e cole-a de maneira que obtenha a fita de Moebius.
Em seguida tome uma tesoura, crave uma ponta na superfície e corte continuadamente no sentido do comprimento. Preste atenção para não recair no corte já feito – o que separaria a faixa em dois pedaços. Quando você tiver dado a volta na fita de Moebius, escolha entre cortar à direita e cortar à esquerda do corte já feito. Esta noção de escolha é decisiva. O único sentido dessa experiência reside no ato de fazê-la. A obra é o seu ato. À medida que se corta na faixa ela se afina e se desdobra em entrelaçamentos. No fim, o caminho é tão estreito que não se pode mais abri-lo. É o fim do atalho.
(…)
1965: A PROPÓSITO DO INSTANTE
O instante do ato não é renovável. Ele existe por si próprio: o repetir é lhe dar uma outra significação. Ele não contém nenhum traço da percepção passada. É um outro momento. No mesmo momento em que ele se desenrola, ele já é uma coisa em si. Só o instante do ato é vida. Por natureza, o ato contém em si mesmo seu próprio excesso, seu próprio vir-a-ser. O instante do ato é a única realidade viva em nós mesmos. Tomar consciência já é ser no passado. A percepção bruta do ato é o futuro de se fazer. O passado e o futuro estão implicados no presente-agora do ato.
1965: A PROPÓSITO DA MAGIA DO OBJETO
Quando um artista transplanta um objeto da vida cotidiana (ready-made) ele pensa dar a esse objeto um poder poético. Meu “Caminhando” é muito diferente. Nesse caso não há necessidade do objeto, é o ato que engendra a poesia.
O que acontece, pois, de importante com o ready-made? Nele, apesar de tudo, ainda se acha a transferência do sujeito no objeto, a separação de um e de outro. Com o ready-made, o homem ainda tem necessidade de um suporte para revelar sua expressividade interior. Mas isso hoje não é mais necessário, pois a poesia se exprime no ato de fazer.
Qual é, então, o papel do artista? Dar ao participante o objeto que em si mesmo não tem importância, e que só virá a ter na medida em que o participante agir. É como um ovo que só revela a sua substância quando o abrimos.
Eu me pergunto se após a experiência do “Caminhando” não se torna melhor consciência de cada um dos gestos que fazemos – mesmo os mais habituais. Pode ser que isso seja impossível, porque exige que se afaste antecipadamente toda significação prática e imediata deles.
A primeira vez que cortei “Caminhando”, vivi um ritual muito significativo. E eu desejo que esta mesma ação seja vivida com a máxima intensidade pelos participantes futuros. É preciso que ela seja puramente gratuita e que ninguém procure saber – quando estiver cortando – o que vai ser cortado a seguir ou o que já foi talhado antes.
Aí é preciso concentração e, talvez, uma vontade ingênua de apreender o absoluto pelo ato de fazer o “Caminhando”, conservando a gratuidade do gesto. O ato do “Caminhando” é uma proposição que se dirige ao homem cujo trabalho, cada vez mais mecanizado, automatizado, perdeu toda a expressividade que tinha antes, quando o artesão dialogava com sua obra. Talvez o homem só tenha perdido esta expressividade nas suas relações com o seu trabalho – ao ponto de tornar-se totalmente estranho – para melhor redescobrir hoje seu próprio gesto cheio de uma nova significação. Para que tal mudança, verdadeiramente, se opere na arte contemporânea, é preciso outra coisa que simplesmente a manipulação e a participação do espectador. É preciso que a obra não se complete em si mesma e seja um simples trampolim para a liberdade do espectador-autor. Este tomará consciência através da proposição que lhe oferece o artista. Aqui não se trata da participação pela participação, nem da agressão pela agressão, mas que o participante dê um sentido ao seu gestoe que seu ato seja nutrido de um pensamento: a ocorrência do jogo coloca em evidência sua liberdade de ação.
Quando a obra era dada pronta (“a obra de arte”), o espectador só podia tentar decifrá-la – e para isso às vezes era preciso inúmeras gerações. Era um problema de elite. Daqui em diante, com o “Caminhando”, é no instante em que pratica o ato que o espectador percebe simultaneamente o sentido de sua própria ação. É uma comunicação mais direta. Não é mais um problema de elite.
Por outro lado, a obra antiga – o objeto fechado em si mesmo – refletia uma experiência já passada, vivida pelo artista. Enquanto que agora o importante está no ato de fazer, no presente. “A arte torna-se o exercício espiritual da liberdade. O acontecimento da liberdade é também a realização da arte”(Mário Pedrosa). Cai-se na obra anônima – cuja assinatura é o ato do participante.
O artista se dissolve no mundo. Seu espírito se funde no coletivo, ficando tudo em si mesmo. Pela primeira vez, no lugar de interpretar um fato do mundo existente, troca-se este mundo por uma ação direta.
Mesmo se essa proposição não é considerada como uma obra de arte e fica-se cético sobre o que ela implica, é preciso fazê-la, apesar de tudo. Através dela o homem se transforma e se aprofunda, mesmo que não queira nem saiba. Assim o artista abdica um pouco de sua personalidade, mas ao menos ajuda o participante a criar sua p’ropria imagem e a atingir, através dessa imagem, um novo conceito de mundo. Este desenvolvimento é extremamente importante, pois diametralmente oposto à despersonalização – que é um dos traços de nosso tempo.
Se a perda da individualidade é de qualquer modo imposta ao homem moderno, o artista oferece uma vingança e a ocasião de se encontrar. Ao mesmo tempo em que ele se dissolve no mundo, em que ele se funde no coletivo, o artista perde sua singularidade, seu poder expressivo. Ele se contenta em propor aos outros de serem eles mesmos e de atingirem o singular estado de arte sem arte.
1968: NÓS SOMOS OS PROPOSITORES
Somos os propositores: somos o molde; a vocês cabe o sopro, no interior desse molde: o sentido de nossa existência.
Somos os propositores: nossa proposição é o diálogo. Sós, não existimos; estamos a vosso dispor.
Somos os propositores: enterramos “a obra de arte” como tal e solicitamos a vocês para que o pensamento viva pela ação.
Somos os propositores: não lhes propomos nem o passado, nem o futuro, mas o “agora”.
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