Outro dia eu conversava com a Lorena na casa de um amigo nosso e começamos a falar sobre uma questão a qual eu vou chamar aqui de “a questão processual”. Isso quer dizer que cada identidade, cada percepção que a gente tem baseado em quem somos e que lugar ocupamos [variáveis x,y,z t - resgatando na memória a aula de matemática elementar, por favor] não é equivocada desde que seja temporária, desde que seja pontuação e não fixação passiva [settling down].
Essa conversa vem povoando bastante meu imaginário, visto que essa oscilação pode originar uma série de enquadramentos midiáticos. Um jogo de ping pong, o símbolo yin yang, as alternativas sim e não, o movimento do universo geral [cósmico] e pontual [indivíduo], a luz emitida pela lâmpada On, e a ausência de corrente elétrica ativando-a Off.
Eis que hoje Daniel Aksten posta uma pergunta no Facebook:
- A question of free will. Do you have a choice, or do you just end up doing what you are going to do?
Começamos a debater baseando-nos na observação empírica do enviroment around us e após um “ping pong yin yang on off absolute relative yes and no”, o professor Grant Morgan Czerepak-Singh postou isso:

Esse experimento, que pode ser testado com um método científico simples, nos mostra exatamente esse Múltiplo e esse Único constituindo o Todo, o caos que se revela padrão. O Absoluto/Relativo no qual é perceptível se observar no arranjo final, numa escala macro da geração de fragmentos randômicos, uma constante, um movimento de equilíbrio.
Arte = Ciência
Arte x Cultura
arte = Cultura
Cultura = Lei
O caos e a curva me levam pensar em mil coisas: nos estudos de cinema de database, na Experiência do Eu [localizada e passageira], nos estados da matéria e na capacidade de transmutação da substância de um a outro, mas principalmente nessa possibilidade de ir além do próprio limite, da coordenada corpográfica na qual nós indivíduos nos encontramos. E não é esse o bom da vida? O fluxo, o movimento, a reflexão?

Outro dia ressuscitei Je vous salue, Sarajevo, filme no qual Godard sublinha uma afirmação já feita em várias outras obras dele: A cultura é a regra, a arte é a exceção. Uma citação bastante libertadora para o artista que vive e trabalha no Brasil, o lugar onde sempre se cobra mais das políticas públicas, – defendida por tantos acadêmicos – se roga por “incentivo à produção”, e na minha percepção, mantém-se a arte [que na verdade já é cultura e não mais arte] num estado de imensa fragilidade, dependência e espera [preguiça?]. Nisso se forma uma constante, na qual o artista que por si só não é ativo, cobra uma atitude pró-ativa do público, e espera pelo prêmio, pela atenção de tudo e de todos, antes mesmo de “sair da caixa”, extrapolar o limite sócio-cultural. E é por isso que me pergunto “como pode numa terra de absurdos, a arte desejar ser manutenção e não resistência?”.
Novamente, essa pergunta [?] me transporta a um ponto [.]. Esse ponto, você considera como quiser, resposta ou exemplo, porque o que ele é mesmo é ativo, afirmativo, certeiro. O ponto nesse caso é Pablo Picasso.
Muitos dos meus amigos pintores exaltam Picasso, pela técnica, pela textura, pela habilidade, pelo “talento”. Mas eu devo confessar que essas coisas nunca me interessaram muito. Como o Gustavo Bittencourt me dizia ontem: isso é porque você gosta de arte chata, de arte conceitual. Ele tem razão, o que me interessa na arte é essa parte dela que, no momento da criação, se relaciona mais com a ciência do que com a “beleza, virtuosismo e técnica”. É a arte que me leva a entender o funcionamento dessa engrenagem que vai desde o meu umbigo ao macro dos macros no todo. E foi isso que me chamou a atenção de Picasso quando comecei a ler sobre ele: me parecia que a arte era pra ele apenas uma ferramenta; que o Deus ou o Motor estava mesmo no movimento, na procura.
Picasso testava, elaborava hipóteses como um cientista e logo quando seus recortes eram enquadrados pela moldura dourada da Fine art, ele entendia que não era aquela a hipótese que solucionaria seu problema. Abandonava seu statment e partia pra outra jornada rumo ao essencial da existência, porque sabia que não existia um estilo, uma forma, um número 42; o que existia era uma possibilidade infinita de estilos, pinceladas, formas, corpos, temas, números, cores – e ao meu ver, é isso que se pode levar de mais precioso do espanhol quando se olha para o geral de seu trabalho de quase 15 mil obras: o fator insaciável, a curiosidade constante, o cientista maluco com titulação de artista brincando com tintas, mulheres e com a própria vida.

O engraçado é que Picasso é contemporâneo a Einstein, o físico artista [eleito personalidade do século por vários meios] que popularizou a física, disse que qualquer conceito físico eficiente seria capaz de ser explicado de uma forma que crianças pudessem entender e afirmou que seu único objetivo era conhecer os pensamentos de Deus.Se a gente para e pensa, há tanto em comum entre os dois gigantes do século XX…
Se por um lado arte e ciência se identificam enquanto estado de geracional, criacional, por outro a cultura acolhe a arte enquanto corpo desenvolvido, em processo mais avançado de envelhecimento. No fim das contas, o objeto da arte é matéria ocupando espaço em ambos os casos – ciência ou cultura – X, Y, Z. O que separa um do outro é uma quarta variável [no meu ralo entendimento eu sei que existem mais de 15 variáveis espaciais na física atômica, mas eu vou formular essa imagem só com 4], a variável T, a que determina se a experiência é pontual ou eterna constante. Então arte é cultura e arte é ciência, assim como o randômico é caótico e padrão, sendo a ciência filha do caos e a cultura filha da constância e o que define e circunda todos esses estados de lei e subversão da lei é o próprio tempo.
O artista, ao meu ver, é aquele que transita, que borra a fronteira entre o que é novo e o que já está fixado. Entre a descoberta e o aprofundamento. Aquele que tira o peso só do conceito e só da execução, que ocasionalmente tende a um ou a outro, mas sempre considerando que existe um mundo de possibilidades ao redor, e que a única coisa imutável é a capacidade de escolha – escolha de permanência, escolha de rompimento e transformação; escolha em si. Tudo o que é vivo oscila: ganha em conteúdo, perde em forma. Tudo o que é vivo tende ao estático e ao dinâmico, e a essa variação dá-se o nome de movimento.
Lembro também da citação de um roteirista [?] em Acossado ao ser indagado sobre a maior ambição de sua vida. A resposta dele? Me tornar imortal e, após isso, morrer.
Elementar.