Quero agora tentar traçar um percurso das idéias, olhando pra trás, pra essas últimas quatro semanas de trabalho no 1000 casas.
Comecei essa etapa B da primeira fase desistindo das duas idéias propostas por mim na etapa A (aqui e aqui), e fiz isso porque acreditei que embora tivesse um caldo ali, e eu estivesse até bastante empolgado com a idéia das árvores, nenhuma das duas propostas tinha como foco uma coisa que se configurou como a viga mestra do 1000 casas: a performatividade. Claro, as duas idéias articulavam isso de alguma maneira, especialmente a faxina, mas em segundo plano. Vejo as árvores muito por uma perspectiva do desenho. Um desenho quase imaginado, que não se pode apreciar como um todo, num relance – só em partes, mas que se sabe que está lá, ou estará. Gosto muito da noção de tempo, de um desenho que se forma constantemente numa velocidade tão lenta que se torna imperceptível, num ritmo que não é o do traço. Aliás, nem há traço, mas pontos/árvores que formariam uma percepção de traço. Há essa concretude impalpável do desenho, tão impalpável quanto os elos entre os moradores que plantariam e cuidariam das árvores. Mas acabei falando mais do que eu queria das árvores, só pra dizer que abandonei essa idéia porque faltava nela um ponto importantíssimo: meu corpo.
Partindo de inquietações e referências que eu coloquei no penúltimo post, sobre espaços, pensei a princípio numa abordagem que já contextualizaria fortemente uma ação, abrindo um espaço restrito (mas ainda muito amplo) pra que os dois outros esteios da nossa prática (concepção e documentalidade) fossem colocados: escolhi fazer as 5-10 visitas em casas construídas em terrenos de invasão.
Me alimentei da imagem que o cipó trouxe (de uma pedra jogada na água e suas reverberações em ondas circulares na superfície) como metáfora de uma idéia/ação que é jogada e a partir dela se constrói e elabora uma proposta mais completa, em oposição à mesma imagem da pedra em tempo reverso, onde se relacionam idéias, se configura um contexto, se elabora um discurso pra então emergir da água uma idéia/ação sólida, una.
Empaquei. Empaquei e me reconheci na Mani, a manequim que mora no galpão, que depois de tanta convivência com os nucleanos foi ganhando mais maquiagens, comentários e apetrechos, até que se pareceu muito comigo naquele momento. Além das velhas lágrimas de esmalte vermelho sangue, ela ganhou um “córtex” na testa, um nariz de palhaço, um coração no peito esquerdo, um intestino e uma implacável “dor de barriga”. E claro, a mesma imobilidade de sempre. Só me restou sentar ao lado dela e escrever.
E então da própria imobilidade que me impunha meu pensamento, do meu próprio empacamento artístico, veio o bloco de concreto, que acaba sendo um passo a frente.
foto do jell carone
Ainda no dia, pensei que se tratava de outro assunto, essa imobilidade. Mas as conversas com o Jell me ajudaram a alinhavar alguns pontos, enquanto percorríamos de carro as beiradas do dirceu na busca de uma exatidão maior no mapa que estamos montando. Lembrei muito do filme Atrás da Porta, das pessoas que aturavam a tropa de choque da PM fluminense sem arredar o pé desse espaço inútil que elas tavam querendo chamar de casa. Pensei na luta que é, pra muita gente, ter um espaço pra si. Pensei nas fundações de uma casa, em colocar meu corpo diretamente nessa função. Ser arrimo de mim mesmo. Aspirar a uma verticalidade, enraizar, subir. Firmar, fixar, conquistar meu espaço. Ninguém mais toma ele de mim.
Essa primeira experiência com o pé no concreto levantou muitas dúvidas sobre a ação. Quando comecei eu pensava em ficar só por uma hora, mas logo resolvi que se aguentasse, ficaria mais. Acabei ficando por pouco mais de quatro horas, em negociações constantes com meus limites. Extremamente cansativo, mas entendi que esse tempo estendido é importante para a fixação, o tempo de secagem da massa. Ainda me questiono até que ponto estou interessado em entrar nesse jogo com os limites, até que ponto não é apenas um fetiche de superação pessoal e de espetacularização da ação, mas ainda tem alguma coisa que me intriga aí como performer.
Outra dúvida é sobre a bota. Me pergunto ainda se ela não é um bocado ilustrativa, se não está ali apenas representando um operário, como figurino. Na possibilidade de eu tirar meus pés da bota e deixar na casa como um objeto (será que alguém estaria interessado nesse “objeto artístico”??) até gosto dela, pela presença que ainda evoca de um corpo, pela possibilidade de calçá-la de novo. E com essa possibilidade, tem a possibilidade também de descalçá-la a qualquer momento durante a secagem do bloco, que aponta pra um outro caminho em relação a fixação, a imobilidade. A impossibilidade passa a ser uma escolha, ou uma falta de visão das possibilidades. O Jell gosta bastante disso, ele diz que é como uma algema com chaves.
Outra maneira seria fazer com o concreto direto sobre os pés descalços, ou melhor, cimento e areia só (senão as pedras machucariam muito), reforçando a imobilidade, a impossibilidade. Pensei ainda em juntar os meus tornozelos com um emaranhado de arame antes de jogar o cimento, da maneira que tenho pensado umas esculturas de escombros, que tem uma idéia bem obsessiva com o uso do arame.
Agora, quero mesmo é cavar um buraco no chão de terra, bem quadradinho, entrar dentro dele e jogar o cimento, não mais usar a caixa de madeira. Também, a experiência com o Izaká usando os cadarços amarrados me distanciou da idéia de fazer isso sozinho. Achei mais potente fixar-se um diante do outro, porque articula mais a negociação do uso do espaço, e mais ainda a imobilidade. Cria-se uma tensão nesse espaço entre um e outro, que não é nem uma tensão que vem da sensação do que pode acontecer ali entre os dois, mas do que poderia acontecer, e que não vai.
11 de junho de 2011 em 23:46
cara, muito forte esse texto. assim como as imagens.
aliás, o que achei mais legal foi ver imagens tão fortes qto as ideias, é difícil conseguir esse casamento. a bota sozinha no bloco, o ponto alto. é isso aí.