“Não há, para um corpo, a menor possibilidade de ser só…
Do ponto de vista do corpo, pelo contrário, só há relação e processo.
O corpo é trabalho vivo e, portanto, expressão e cooperação,
ele é construção material do mundo e da história.”
“E multidão é o nome de uma multidão de corpos.”
“Multidão é o conceito de uma potência…
a potência não quer simplesmente se expandir,
ela quer, sobretudo, conquistar um corpo:
a carne da multidão quer se transformar no corpo da Inteligência Coletiva.”
Entre o público e o privado, o filósofo italiano Antonio Negri fica com o comum, o espaço onde se mobiliza e se movimenta a Multidão. Considerado o grande pensador da nova esquerda mundial, Negri afirmou, que o terceiro mundo não está mais ao Sul do Equador, mas em todo lugar, inclusive nos países desenvolvidos. “O furacão nos mostrou essa realidade monstruosa: ele está em New Orleans”. O filósofo-coqueluche da Europa diz que o mundo globalizado do século 21 está, afinal, unificado, mas movido por dois vetores que se confrontam e se complementam, como yin e yang: de um lado, o Império e, de outro, a Multidão.
A globalização gerou o Império, o sistema que controla a produção e o fluxo econômico, mas também abriu as fronteiras nacionais e mundializou as relações pessoais, gerando a Multidão, a nova revolução das pessoas que se comunicam furiosamente, fora do controle de qualquer Estado, sem o estímulo das velhas ideologias e sem as limitações das fronteiras nacionais, que caminham para a extinção. Antonio Negri, 72 anos, inventor do Potere Operaio, exilado por 16 anos na França e preso por 6 na Itália, diz que assim é o mundo novo.
“Estou convencido de que é o comum que nos permite ampliar as liberdades”, afirma ele, quebrando pilares centenários da velha esquerda que já perfilhou com ardor e pregando um novo pensamento comunitário: “A Multidão não é revolucionária”, agrega, “mas ela pode construir uma consciência de transformações profundas”.
O que é a Multidão?
Antônio Negri nos diz que a multidão é um conjunto de singularidades, ou seja, são diferenças que se mantêm diferentes. A multidão é múltipla, não unificada e plural. Seus sujeitos sociais são ativos, eles agem com base naquilo que suas singularidades têm em comum. Ou, como o próprio autor nos diz, “a multidão é uma carne viva que governa a si mesma” (NEGRI, 2005). A produção biopolítica da multidão tende a mobilizar o que compartilha em comum e o que produz em comum contra o poder. Entretanto, essas condições comuns que os sujeitos da multidão compartilham não querem dizer que há uniformidade e nem unidade entre eles, é bom que isso fique claro. A multidão é “uma rede aberta de singularidades que se mantém unida com base no que compartilham e produzem em comum”.
Multidão:
Composta de um conjunto de singularidades
Sujeito social cuja diferença não pode ser reduzida à uniformidade
Mantém-se múltipla, mas não é fragmentada, anárquica ou incoerente.
É internamente diferente e múltiplo, cuja constituição e ação não se baseiam na identidade ou na unidade (nem muito menos na indiferença), mas naquilo que tem em comum.
Potencialmente formada de todos os que trabalham sob domínio do capital e que recusam este domínio.
Povo é uno.
Sintetiza e reduz diferenças sociais a uma identidade.
As partes componentes de povo são indiferentes em sua unidade.
Tradicionalmente é o povo quem governa como poder soberano e não a multidão.
Porque só o que é uno pode governar – seja o monarca, o partido, o povo ou indivíduo.
Metáfora = corpo humano. = Forma-se um corpo político dotado de uma cabeça que governa, membros que obedecem e órgãos que auxiliam e dão sustentação ao governante.
Conceito de multidão desafia esta metáfora, porque é carne viva que governa a si mesma.
Multidão é o único sujeito social capaz de realizar a democracia – governo de todos por todos.
Multidão – carne social, carne que não é um corpo, mas é substância viva cheia de potencial (para muitos é monstruosidade – não são povos, nações ou comunidades, mas o caos que resulta do colapso da ordem social moderna)
“Precisamos encontrar meios de realizar esse monstruoso poder da carne da multidão de formar uma nova sociedade”.
Produção do comum
Comum – aquilo que compartilhamos e serve de base para a produção futura, nhuma relação expansiva em espiral.
Exemplo: comunicação – linguagens, símbolos, idéias e relações que produzem novas linguagens, símbolos, idéias e relações.
O motor da produção e da renovação encontram-se entre o individual e o social, na comunicação e na colaboração, na ação em comum.
Como as singularidades que cooperam expressam seu controle sobre o comum?
No moderno o estado controlava serviços essenciais de uso comum.
No neoliberalismo eles são entregues às regulagens do mercado.
No projeto de soberania da multidão, deve-se estabelecer o interesse comum, não gerido pela burocracia ou pelo mercado, mas democraticamente pela multidão.
Como estabelecer o comum?
Premissa: a democracia (“devemos reconhecer que democracia não é uma exigência absurda ou inatingível)
A vasta maioria de nossas interações políticas, econômicas, afetivas, lingüísticas e produtivas baseia-se sempre em relações democráticas. Embora pareçam espontâneas ou fixadas pela tradição, são na realidade processos civis de troca, comunicação e cooperação democráticas que desenvolvemos e transformamos diariamente.
Trabalho imaterial – duas formas
a) Intelectual ou lingüístico (produz idéias, símbolos, códigos, textos, formas lingüísticas, imagens e outros;
b) Afetivo – Manipula afetos como a sensação de bem-estar, tranqüilidade satisfação, excitação ou paixão.
Se antes era preciso industrializar, hoje é preciso informatizar, tornar-se inteligente, comunicativo e afetivo.
Relações de trabalho são:
Flexíveis – trabalhadores devem se adaptar a diferentes tarefas.
Móveis – Mudam de emprego constantemente.
Precários – nenhum contrato assegura emprego estável de longo prazo.
“É preciso insistir sobre o fato que a atividade implicada no trabalho imaterial permanece, ela mesma, material – ela engaja nosso corpo e nosso cérebro, como todo trabalho. O que é imaterial é seu produto. E, desse ponto de vista, nós admitimos que a expressão ‘trabalho imaterial’ é bastante ambígua. Talvez, por isso, seja preferível falar de ‘trabalho biopolítico’, isto é, um trabalho que cria não somente bens materiais, mas também relações e, em última instância, a própria vida social.” (Hardt & Negri, 2004)
Para Antonio Negri a internet é a mídia da multidão pois nela ou através dela, o sujeito está em completa “imersão em um fluxo contínuo”. É um novo ser: O biopolítico,isto é, para Negri a vida com a rede “envolve uma as outras, que são ligadas umas às outras”. Diferentemente da TV, com a internet o sujeito deixa de ser um simples consumidor passivo e passa a ser também um ser atuante na produção que ele proprio irá consumir, participando assim da constituição do comum.
23 de setembro de 2009 em 23:42
Se como Negri fala é o comum que nos permite ampliar as liberdades, acredito que o ônus disso tudo é bem proporcional a essa potente ampliação. E esse ônus vem em eu ter que justamente aceitar conviver com essas diferenças e singularidades. Acho que realmente tá faltando um espaço pra que as tensões dessa fricção de diferenças vaze, escoe, porque às vezes eu acho que intoxica, envenena mesmo.
Quimioterapia? Outro veneno pra anular esse? O Negri ou algum mágico de circo de ponta de esquina, daqueles de lona furada, bem podia inventar ou tirar da cartola uma cartilha sobre isso também.
24 de setembro de 2009 em 5:10
ou também podemos escrever:
o poder de se comunicar delicadamente ou o pacto com a agressividade.
os dois titulos são alternativas possíveis.
a força da delicadeza é algo surpreendetemente potente!
esse espaço pras fricções das diferenças escoarem, dani, é o trabalho, na minha opinião. é organização e trabalho e deixar as respostas virem com o tempo. com o proprio fazer artistico. porque as vezes nao adianta forçar a barra.