O Povo Vai Aonde o Carnaval Está!

Por: às 18/02/2010 01:35:00

Gosto de carnaval. Sempre gostei.

Minhas primeiras lembrancas sao do tempo dos bailes infantis do jockey Club, quando me encontrava rodeado de pequenas baianas, piratas, aladins, caubois, colombinas, fadas, bruxas e muitos palhacos espalhados no salao enfeitado, confetes e serpentinas ao som das bandas de sopro tocando marchinhas. Eu me lembro de estar em pe numa mesa em volta do salao vestido de indio. A memoria me traz com exatidao para esse momento, como se nada tivesse existido antes e nem depois. Olhava maravilhado para o salao ao som da musica, e acho que acessei ai a primeira nocao do que seria o imaginario na vida das pessoas, a fantasia como um conceito geral aplicado aa nossas vidas. Fantasia como forma de sublimar (mesmo que por alguns instantes) a propria existencia, ou deslocar para um outro plano, – de maneira consciente e voluntaria -, o real delimitado do nosso espaco no mundo. Foi talvez a minha primeira experiencia estetica, uma maneira de passar a entender certas coisas pelos valores subjetivos contidos nelas.

Durante a noite de domingo de carnaval passei sozinho de carro pela avenida frei serafim – coluna vertebral da cidade- a 1 hora da manha. Estava totalmente deserta, com um ar de abandono e solidao, que se intensificou quando me ocorreu a ocasiao: Era domingo de carnaval.

Tive que lembrar da minha avo me levando pela mao para ver o desfile acontecendo ali no final dos anos 60. Desfilavam a “Piratinga do Ritmo” – a escola do politico Touranga – e a “Escravos do Samba”. Naquele tempo nao tinha camarote, nem banheiro quimico, nem cerveja em lata e nem cameras digitais. O povo das escolas vinham dos bairros a pe, tocando e cantando, com um monte de gente pulando atras. Todo mundo bebendo cachaca, embriagados como num transe, em um outro estado de consciencia, que seria o que se chama “catarse coletiva”. Era o momento que se juntavam os ricos e os pobres, os que moravam na avenida e botavam as cadeiras de spaguetti chiques na epoca (nao existia a florense de hoje), com os que vinham das ruas paralelas se afastando para a vermelha ou o marques como eu, com mais a gente dos bairros, do Poti ao Parque Piaui, que tomavam juntos a avenida. Essa juncao espontanea em torno do carnaval funcionava como posicionamento pessoal, mas sobretudo social e politico. Mesmo ainda mantendo tracos determinantes da relacao hierarquica de uma corte tupiniquim, aquele momento apontava para a construcao de uma identidade subjetiva outra, e direcionava o presente processo de adaptacao e organizacao de nossa sociedade.

O povo se acotovelava nas ruas, os ricos olhavam de suas janelas e varandas, e os pobres ja eram escravos de um samba social que crescia com o capitalismo. Ja existia rico, pobre, doutor, politico, viado, doido, jornalista, os mal-falados, os de orgulho e os descriminados, tal qual hoje em dia, apenas em quantidade muito menor. Mas naquela epoca a avenida principal da cidade era ocupada de forma quase ingenua, mas determinante, como posicionamento politico-cultural poderoso, gerado como bem imaterial comum a todos os cidados da cidade, sem distincao de classe social. Essa forma vem a ser exatamente oposta e contraditoria aa maneira que se pensa e organiza hoje o carnaval de Teresina.

Com o slogan barato e desgastado “o carnaval vai aonde o povo esta” a prefeitura de teresina distribui outdoors coloridos pela cidade. A ideia de mandar as escolas de samba separadamente aos bairros perifericos da cidade, tem algo de sao-pobres-mas-limpinhos-e-tambem-merecem-diversao de um cinismo infame. Conseguem transformar socialmente esses lugares em terrenos de coitadinhos, excluidos e subestimados, aqueles que nao podem participar da cidade como um cidadao pleno de direitos como qualquer outro vivendo nela. Seria preciso que a informacao chegue aos bairros em doses comedidas, pra nao machucar ainda mais a pobreza, ou para aplacar a violencia contida e nao desejada por nos do centro ou da zona leste?

A miseria ganha o seu pedaco de pao, e determinam assim uma politica cultural para a cidade que vai muito alem do carnaval. Gestao cultural como ato de bondade religiosa travestido de politica publica populista, esbanjando regionalismos folcloricos identitarios, e impondo democraticamente cultura acessivel para gente pobre e burra. Esse pensamento alem de perverso, e’ de uma hipocrisia terrivel, muito comum e facil de ser reconhecido em mecanismos politicos habilidosos, sustentados por uma intelectualidade formal e obsoleta, mas agil na manutencao desses dispositivos de poder. Nao se pode nao considerar o que esta por tras disso, porque e’ obvio e insolente quando se considera o que se passa no mundo em termos de manipulacao e desvalorizacao da chave da existencia subjetiva de um povo: A cultura.

O slogan e’ descriminatorio quando propoem um segregamento, colocando o povo em um lugar “de fora” (aonde o carnaval deve ir ate ele) e numa condicao geral de nao-pertencente. Diz ironicamente que como compensacao vamos ate o seu lugarzinho, para evitar que voce venha se deparar aqui no centro, com aqueles que lhe preferem nesse lugar de contorno, de quase de fora.

Assim os gestores cumprem suas funcoes como agenciadores de nossa cultura, como administradores do pensamento social de nossa cidade, como protetores do nosso senso coletivo de comum. Com isso cumprem tambem com a seguranca da cidade, evitando brigas e violencias, nao interrompendo o descanso da classe media e diminuindo os acidentes de transito, alem de economizar um pouquinho o dinheiros dos cofres publicos, sem nos deixar saber se esse dinheiro economizado vai ser empregado na seguranca do povo ou nas bases de atendimento medico espalhadas pela cidade. O melhor seria pensar que as economias fossem empregadas ao menos no fomento de outras formas de preservar o nosso comum-cultural, patrimonio da maior importancia para nossa sobrevivencia, e que nos capacitaria para um desenvolvimento humano, social, cultural e politico sem fronteiras.

Mas o carnaval de Teresina vai aonde o povo esta, e nao ao povo, mas vai aonde esta a nocao que essa administracao tem dele, e que insiste em manter assim por uma ignorancia arrogante e autoritaria. Os blocos de sujo estao hoje sujos de uma pseudo limpeza moral e etica, de um pensamento reacionario disfarcado de democrata, que acredita no bem de todos e no cumprimento do dever. Esse pensamento e’ o que tira do cidadao o direito de ser ou nao-ser o que quizer, de transgredir uma ordem biologica e sensorial mesmo que por alguns dias, de se fantasiar de gente como todo mundo, de se encharcar de possivel, de se perder na multidao e trocar as mascaras, de nao comer, nao dormir, de sucumbir aos desejos da carne, de tomar banho de chuva e se misturar no suor, no talco e na sujeira do mundo, de reverter a ordem e instalar o caos, mesmo que momentaneamente, como forma de transcendencia arcaica da condicao de ser humano socializado.

Perdemos assim o poder de sermos o que nao gostariamos de ser por imposicao de regras e normas que abastecem os regimes. O poder de agir como profanadores dos sistemas hierarquicos e monopolizadores, e o direito de exercer uma ironia intuitiva e inteligente, que nos garante a condicao de seres humanos livres e imbuidos de uma subjetividade que se constroi, se adapta e evolui para preservar a nossa sobrevivencia.

O carnaval esta no povo dos bairros e as criancas dormem enfadadas por essa anestesia bondosa, por essa dose cavalar de entorpecimento injetado nas suas perspectivas de futuro amplo e no dominio de suas fantasias pessoais. O bloco dos sujos espalha a sujeira controlada, reciclada nos toneis da hipocrisia, la mesmo onde vai parar a sujeira do miolo. E o povo engole calado, a espera de alguem que grite do meio dessa folia morna: “o rei ta nu!” , para quem sabe dissipar o terror desse real que tentam nos fazer engulir guela abaixo.

Gosto de carnaval. E  vou continuar gostando.

Photos > Erwin Olaf



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6 Comentários

  1. crazy da selva disse:
    19 de fevereiro de 2010 em 16:36

    massa esse texto…me faz pensar como temos que ser profanadores de nós mesmo, nesse momento que temos uma faquinha e um queijinho na mão, e não venhamos a nos tornar mais um ponto de cultura, ou mais um petrobras, onde o ensinar o que eu não sei..seja realmente uma profanação de mim, ego, detentor de uma verdade mesmo que seja fraquinha mas e uma verdade, e me misture dignamente com aqueles a quem me proponho ensinar o nada…espero que não criemos um novo conceito da mesma coisa!


    Responder
  2. Regina disse:
    19 de fevereiro de 2010 em 17:41

    ai, fabitcho, só ainda me tremo quando vejo consideramos que podemos ser "detentores de uma verdade" (mesmo que fraquinha)… q claro que individualmente estamos sempre a escolher uma ou outra, que guia cada decisão. mas penso que em nossas ações do Núcleo estamos discutindo "propor" o que não sabemos, exatamente pra estarmos construindo junto com a comunidade (etc) outras possibilidades, mais que "ensinar" o que não sabemos. e isso precinde abandonar a idéia de que tenhamos possamos ter uma verdade. Tenho/temos muito o que estudar, ler sobre, mas entendo que acima de tudo devemos trabalhar partindo do princípio de que inúmeras co-existem, e na real somente cada um pode decidir quais valem pra si–isso jamais deverá vir da gente. ((E se for fraquinha, então…))


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  3. wilena disse:
    19 de fevereiro de 2010 em 23:59

    acho que me perdi no meio disso..acho que passei a maior parte do tempo com receio por me sentir perdida..e pra mim isso hj mudou de receio pra várias incertezas..que não sei o quanto é igual ou pior, mas digo que estar cada vez mais perdida me mostra que tenho chaves pra descobri e encontrar alguma coisa..acho q o rumo foi pra outro rumo mesmo, e ter verdades fracas, fortes, verdadeiras, cheias de si, verdade q não sabe o que é, ou é apenas "não é coisa com coisa" como por exemplo eu agora sentir vontade de escrever um monte de besteira, sem sentido algum e palavra nenhuma coerente com a anterior e a próxima..talvés ter um choque por ler um texto que me fez reelembrar coisas que contribuíram para formar o que eu sou hj..(ainda nem li todo o post da lay, mas vi que começa com a quetão:" como eu me tornei o que sou", só li isso e já fiquei com uma baita inquietação, dai chego nesse post e vejo o q eu tive não tendo algumas coisas, o que eu tive tendo algumas coisas e o que eu não tive tendo outras, então ta tudo como geralmente costuma estar em minha cabeça, só que um pouquinho mais grave..
    lendo agora eu tive a mesma sensação que eu tive no domingo de carnaval, na lateral( já que o meio era para a apresentação da escola de samba) da pç cultural situada aqui no dirceu mesmo e com a ânima luíza sentada nos meus ombros, não precisei ter um histórico de carnaval, pois esse eu não tenho mesmo e parece que a ficha só caiu naquele exato momento em que umas 70 a 80 pessoas tentavam levantar quem os via com o samba enredo que eles cantavam e minha criança dormia, simplesmente dormia em meu colo..ali bateu revolta, vergonha, tristeza, culpa..culpa essa q aumentou 1 ou 2 dias depois qnd ouço um certo cidadão teresinense dzr, dzr q a responsabilidade de tudo não pertece a quem eu e acredito que quase 100% dos demais cidadãos teresinense acreditavam ser..dai me veio que eu sou culpada pela tristeza que eu havia sentido, por minha filha ter dormido, pelas outras crianças que ficaram apertadas em meio ao monte de gente q se exprimia pra ver alguma coisa, pelas passistas dançando em meio a pedras e emcima de um salto alto..putz..
    juro pra vc´s q tbm num to entendendo nada..e talvez falar em meio àquelas pessoas um monte de coisas sem nexo e sem sentido, como eu fiz aqui agora tivesse me deixado menos tensa e preocupada.


    Responder
  4. Weyla disse:
    21 de fevereiro de 2010 em 1:11

    Também adoro carnaval…


    Responder
  5. L.H. disse:
    21 de fevereiro de 2010 em 13:09

    Muito boa sua colocação Regina sobre a reflexão do fábio, também acho que é por aí.

    Marcelito o que você coloca sobre o carnaval é tão nostálgico, (rs) tão "monza", que tem quase uma melancolia. É de uma intimidade delicada que revela um pouquinho dessa sua relação com esse lugar-origem teresina.

    Obrigada. Precimos mesmo fazer deste nosso espaço virtual, que é livre de alcance inimaginavel, um lugar onde nos posicionamos.


    Responder
  6. Marcelo disse:
    21 de fevereiro de 2010 em 18:34

    pois e' layane…tem mesmo muita melancolia, nostalgia, intimidade e muitos monzas…mas so pra chegar aonde estamos, no momento presente, aqui e agora, que e' o que me interessa.
    as vezes e' preciso voltar la atras justamente com aquilo que se tem de mais pessoal, pra poder dar uma opiniao com proximidade com a coisa, principalmente quande se e' considerado gringo no proprio lugar. ja imaginou um forasteiro escrevendo sobre o atual carnaval de teresina sem nunca ter vivido aqui?
    talvez eu ande soterrado de melancolia, preciso me cuidar, mas e' que a realidade ta punk nos ultimos tempos, e talvez eu teja apelando pras linhas de fuga.
    mas o que me interessa mesmo e' o que voce tem a dizer disso, como artista, cidadan, moradora do dirceu. alguma consideracao?
    assinado: ana maria rego
    (aquela do concurso de monologos)


    Responder

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Comentários

  • ju: Muito bonito! Tem muito caldo nessa idéia de baiar e exceder a individualidade a partir de um ambiente gerado por...
  • Kayoo': Muito Bom Muito Lindo e Muito “Estigador “
  • Layane Holanda: pois é tem um tom meio “bacaninha” mas sabia que eu gosto da cara de pau, é meio...
  • L.H.: que lindasssssss……so peguei os vestigios, comentários e impressoes da tarde. Que lindo o...
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