O prego de ouro

Por: às 05/05/2011 04:33:22

Interações Estéticas – Pensamentos ordinários

De que serve um prego feito de ouro?

Uma pessoa que precisa de um prego não precisa que ele seja de ouro. É uma contradição.

Ou ainda, alguém que dê valor ao ouro, dificilmente precisaria que ele tivesse formato de prego.

Mas alguém talvez valorize esse objeto em sua totalidade (simultaneamente o material ouro e o formato prego) pagando na verdade por outra coisa, por alguma coisa além dele, pelo que ele precipita, representa, simboliza, pela promessa de acesso a uma possibilidade desconhecida sobre o prego, o ouro e sobre si, pagando por arte.

E não é à toa que estou falando de ouro e arte. Quando penso um pouco sobre arte e capitalismo (leia-se arte e o mundo em que vivemos) de cara vejo que essas palavras gostariam de se repelir ferozmente (o que nunca foi possível) e que elas costumam habitar o mundo do artista de maneira silenciosa, intocável e perversa.  Cruzar essa barreira do silêncio costuma também fazer o artista tremer dos pés à cabeça e sentir uma mistura de medo, desconforto, desespero e culpa.

Ironicamente vou cruzar essa barreira não em nome do dinheiro, nem de lutas por financiamento, mas quase em nome de uma utopia, porque até pra seguir sendo idealista talvez seja preciso diminuir a ingenuidade.

Nunca tinha pensado por exemplo que a arte ocidental de profissão como nós conhecemos hoje surge fundamentalmente com o fim da idade média e o início da revolução burguesa, junto com o capitalismo. Isso significa que as bases dessa arte estão fundadas nessa lógica, condição que parece dar uma possibilidade de existência para a arte nesse mundo, mas que na verdade, nunca se sustentou.

Detalhando a concepção das “inserções em circuitos ideológicos” o  Cildo Meireles fala em uma entrevista sobre esse aparecimento das artes plásticas com a revolução burguesa (e a dança cênica passou por um processo bem parecido)

“Então, o fenômeno das artes plásticas começa exatamente, a partir de três elementos introduzidos, e que seriam: 1) O aparecimento do próprio espaço da representação da tela. Quer dizer, uma grande redução das áreas do afresco, que, até então, tinham um caráter integrado. Uma função comunitária, coletiva, e essa função comunitária foi transformada num espaço menor, nessa embalagem chamada tela (ou palco) (…) 2) Aparece a assinatura (apare o artista- o autor- coisa raríssima até então) e 3) aparece a conseqüência inevitável disso: a noção de propriedade sobre essa função cultural.”

Então ele chega ao cerne das “inserções em circuitos ideológicos”  tentando subverter exatamente essas bases (a embalagem, a assinatura, os mecanismos de troca) da seguinte maneira:

1)A embalagem – Os objetos utilizados não tem nenhuma mistificação ou virtuosismo, ao contrário, são elementos banais e utilitários (garrafa de coca cola, nota de dinheiro)

2) A assinatura – O trabalho só existe a partir do momento em que as pessoas o praticam, não é declarado e tão pouco importaria quem iniciou as inserções para a obra acontecer.

3) Os mecanismos de troca- O público não tem acesso à obra a partir da compra, mas a partir do aproveitamento de um circuito de informação que já existia.

Então, esse raciocínio-ação do Cildo me ajuda a pensar que a lógica da profissão que exercemos não é em si conflitante com o modo de vida capitalista. E de fato pra muitos artistas não o é. Conhecemos a possibilidade de criar um produto, assinar e lançar ao mercado para venda, inclusive foi assim que nos ensinaram a trabalhar. Mas delegar a arte somente aos artistas de profissão tem uma consequência que será sentida mais a frente, na lei de oferta e procura.

A dificuldade de vender as várias formas de trabalho do artista é a  dificuldade de vender um prego de ouro. E a minha suspeita é de que a maior dificuldade de vender um prego de ouro não é a realidade de que poucas pessoas podem comprar coisas de ouro, mas de que poucas pessoas podem dar valor a algo que desconhecem. O prego poderia ser de chumbo que igualmente não venderia.

Com isso não estou falando que pra fruir arte é preciso conhecer sobre arte, por Dios! Desconhecer aqui significa isolamento. Não pertencer, não fazer parte. A arte se coloca nesse papel de produto indiferente na prateleira, fazendo muito pouco para não ser dispensável, e dessa maneira é mesmo muito difícil fazer parte. Enquanto arte for “assunto de artista” continuará sendo consumida apenas por artistas, o que sempre foi insuficiente.

E qual é o problema de não vender arte, de não vender o prego? Caberia no mínimo um dilema existencial para o artista sobre a relevância do seu exercício no tecido social, mas existe alguma coisa ainda mais grave e é por causa dela que o artista hoje exerce um papel inerente de resistência: a consequência de não conseguir vender alguma coisa em uma sociedade capitalista é o risco dessa coisa não se integrar ao sistema e talvez desaparecer.

Mas a arte de profissão não desaparece. Basicamente porque o estado (ou a família) forja essa situação de mercado pagando pelo trabalho do artista, o que deixa o artista hoje com poucas opções: vender sua arte como um artigo de luxo ou apelar pela mentira, pela ilusão do estado.

Essas duas maneiras da arte sobreviver no mundo têm consequências grandes para o tipo de arte que é realizada e têm me atraído cada vez menos como artista. Pessoalmente, tenho buscado alternativas para que um dia a sobrevivência não seja um problema mesquinho que me impeça de ter um posicionamento a respeito disso tudo. Começo a me desprender da ânsia por uma transformação imediata e perceber a urgência de mudar sim a visão sobre meu oficio. Possivelmente ele vai funcionar como flechas que apontam para o futuro, 50, 100, 200 anos, e sem dúvida alguma pelo tom da conversa chegamos finalmente à utopia.

O que não se sabe é preciso inventar.

Quebrar a marretadas os funcionamentos perversos que fazem com que a arte se mantenha uma experiência rara, singular, extraordinária. Colocá-la no plano da concretude, da vida e da interferência social. Fazer e ensinar o que não se sabe. Destruir a mistificação sobre a figura do artista. Destruir a mistificação sobre os processos de produção. O artista deve fazer seu trabalho de modo a permitir que outros possam também realizá-lo (também acho Cildo). A educação de arte tem ajudado a perpetuar idéias das quais na verdade não concordamos. A omissão é um lugar perigoso. A expectativa é um lugar de pouca ação. E a autoridade normalmente é invisível. E nós, só queremos quebrar as paredes que ficam em volta das janelas.



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1 Comentário

  1. jana disse:
    5 de maio de 2011 em 17:17

    massa Ju, curti!


    Responder

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