“A ética é daquelas coisas que todo mundo sabe o que são, mas que não são fáceis de explicar, quando alguém pergunta”.(VALLS, Álvaro L.M. O que é ética. 7a edição Ed.Brasiliense, 1993, p.7)
Segundo o Dicionário Aurélio Buarque de Holanda, ÉTICA é “o estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana susceptível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja de modo absoluto”.
Alguns diferenciam ética e moral de vários modos:
1. Ética é princípio, moral são aspectos de condutas específicas;
2. Ética é permanente, moral é temporal;
3. Ética é universal, moral é cultural;
4. Ética é regra, moral é conduta da regra;
5. Ética é teoria, moral é prática.
Para Spinoza as concepções de bem e mal são relativas, pois que ele vincula o bem à utilidade (o que é útil para um, pode não ser para outro), àquilo que não é prejudicial ao homem. Aquilo que é mau, é o que vai contra a sua natureza, o que lhe traz prejuízo, e não é útil à sua conservação. Do mesmo modo, os conceitos de perfeição e imperfeição se vinculam a essa adequação da utilidade.
A nossa razão se fundamenta naquilo que nos é útil, que aumente nosso poder de ação, aí está a perfeição, por outro lado a imperfeição é o que diminui esse mesmo poder, tornando a razão escrava das paixões, e impedindo a sua livre atividade. O homem só é livre quando conduzido pela razão. Nessa perspectiva, tanto a perfeição e a imperfeição, quanto o bom e o mau, não indicam eles nada de positivo nas coisas, consideradas em si mesmas, e não são senão modos de pensar ou noções que formamos porque comparamos as coisas entre si (Spinoza, 1965, p.224).
Como a Razão nada reclama que seja contra à Natureza, pede, pois, que cada um ame a si mesmo, procure o que lhe é realmente útil, deseje tudo o que realmente conduz o homem a uma maior perfeição e, falando absolutamente, que cada qual se esforce por perseverar no seu ser tanto quanto possa. (…) senão segundo as leis da sua própria natureza. (…) Há, pois, fora de nós, muitas coisas que nos são úteis e que, por isso mesmo, devemos desejar. Entre estas, o pensamento não pode inventar senão aquelas que convêm inteiramente com a nossa natureza (Spinoza, 1965, p. 240, 241).
Nietzsche vai ao encontro de Spinoza, na referência ao homem pela busca da felicidade, no uso de suas próprias leis que lhe são inerentes: ao indivíduo, enquanto busca sua felicidade, não deve dar prescrições sobre o caminho para a felicidade: pois a felicidade individual brota de leis próprias, desconhecidas de todos, e preceitos externos podem apenas inibi-la, impedi-la. A liberdade do homem está no desenvolvimento de todas as suas possibilidades, ou seja, as possibilidades ditadas pelo nosso interior, pelo nosso querer, pela nossa vontade de potência, como diria Nietzsche, as circunstâncias externas é que podem nos impedir, nos limitar e condicionar.
A virtude está na ação da nossa causa interna, nos nossos sentimentos, atos e pensamentos. É a passagem da paixão (estado passivo) à ação (estado ativo), dando vazão a nossa interioridade que é o que faz a nossa existência. Dessa forma, o vício submeter-se às paixões, não é um mal, mas uma fraqueza, que acaba por minar as energias internas, que trazem em si a potencialidade de realização do homem, no sentido de existir, de pensar e de agir, Do que segue, que a virtude não é um bem, mas uma força potente, que dá autonomia para a existência. E é na atividade dessa força que está a liberdade do indivíduo.
Na Ética de Spinoza, na Proposição, lemos que quanto mais cada qual se esforça por procurar o que lhe é útil, isto é, por conservar o seu ser, e quanto mais tem este poder, tanto mais é dotado de virtude; e ao contrário, na medida em que é negligente na conservação do que lhe é útil, isto é, do seu ser, é impotente.
Para Nietzsche, a Natureza é rica, é poderosa, não há limites para ela. O homem que é livre, dá vazão à sua natureza, esse poder livre e ativo que impulsiona, aceitando, afirmando com emoção o seu destino, realizando a síntese das oposições, comungando com elas numa unidade. E nessa síntese está o apolíneo (Apolo-deus da razão, da ordem) e o Dionísíaco (Dionísio-deus da aventura, da música, da desordem), que na união de suas forças, constituem nossa realidade à serviço da nossa existência. No pensamento de Spinoza (Proposição XXIX, p..247), encontramos semelhante referência a essa comunhão de forças: Uma coisa singular qualquer cuja natureza é inteiramente diversa da nossa, não pode favorecer nem reduzir a nossa potência de agir, e, absolutamente, coisa alguma pode ser boa ou má para nós, se não tem algo de comum conosco. E o que nos é comum é o que condiz com nossa natureza, e isso verdadeiramente é o que se constitui como um bem para nós.
Para Spinoza, a tendência para o bem vem naturalmente de um conhecimento adequado, de uma alegria sem excessos, da força vital que leva ao bem diretamente, e nesse sentido, pode-se compreender que evita o mal para realizar a perfeição. Pois, o conhecimento do mal é inadequado (Proposição LXIV,p.284). Assim a maior virtude é o conhecimento da adequação dos nossos desejos (sentimentos e emoções) à nossa natureza, e isso vem corresponder a conhecer Deus. Pois que Deus para ele, é a própria natureza enquanto causa de si mesmo, e o mundo é Deus como efeito de si mesmo, como modificação de si mesmo, como sistema de modos (em referência à proposição XXIX-Primeira Parte- De Deus).
Em Nietzsche, o verdadeiro homem, o Super-Homem, não se separa de Deus. O que ele nega é o Deus cristão (o tu deves), e por isso ele diz ser necessário afirmar sua morte, para recuperar a unidade do homem (o eu quero). Deus não lhe é um ser exterior. Quando há a separação do homem e Deus é que temos a religião, pois a religião significa religar, e nessa busca de religar o homem à Deus, o homem acaba perdendo-se a si mesmo, visto que se distancia de sua divindade.