O que imagino sobre a morte? Morte tem sido uma palavra recorrente nos últimos dias. É a metáfora da vez, nos posts desse blog, nas imagens de dez anos de 11 de setembro, nos papos em mesas de bar sobre mil casas e núcleo, nas minhas projeções futuras sobre velhice e saúde. Tem sido uma constatação diária, uma coisa que se opera em meu corpo. Coincidentemente Esther Weitzman se apresentou aqui no Galpão, e eu me vi curiosa e instigada pelo título sugestivo. O que eu imagino sobre a morte: vejamos, não é como imagino a morte ( no sentido de maneira, forma), mas o quê imagino sobre. E mais, sobre A, seguido de artigo definido, “a morte”. Logo, diferente de Morte como assunto mais generalizante, o artigo define, indica, torna mais próximo de mim, pode ser sobre A minha morte ou A condição de morte.
Here we go….assistir ao trabalho foi estranho. E que bom que foi assim, porque não foi uma experiência dual e espartana de ”detestei” ou “adorei”. Mas sabe quando uma coisa não é definitivamente próxima de você (do que você é ou faz) mas ainda assim te toca em algum lugar que você não sabe bem explicar? Então, foi mais ou menos assim.
Por mais que me incomodasse as roupas comportadas em tons lilás, a camada forte de casualidade codificada da dança contemporânea, o ar de sobriedade e silêncio . Por mais que me inquietasse uma quase solenidade e pausaaaaaa….que me lembravam uma morte oficial e editada de algum videoclipe ou transmissão oficial. Por mais que a leveza de algumas músicas do espetáculo me azucrinassem os ouvidos porque tinham uma docilidade exasperada beirando um shape gospel. Por mais que eu questionasse aquela visão otimista demais, feliz demais…. quase espirita. E isso pra exemplificar coisas que me distanciavam do trabalho, ainda assim…. eu gostava. Não mudava minha vida, não me deixava eufórica ou desorganizada. Não exigia de mim uma escolha, ou me colocava em dificuldade, questionamento, incômodo. Era apenas um convite pra que eu assistisse como o outro imaginava. E esse olhar que enxergava tão diferente do meu, me dava uma sensação boa. Ficava pensando, será que a fase seguinte do anestesiamento de uma certa indiferença a tudo e todos, é essa? Uma sensação reconfortante ?
Aí depois eu fui percebendo que eu NÃO estava assistindo o espetáculo naquele lugar bloked da análise, que a gente cai sem se dar conta, aquela relação estabelecida em que durante a experiência você fica “nossa eu não usaria isso” ou “eu faria diferente”. Eu estava experimentando a mesma sensação de alguns dos espetáculos que vi na Bienal de Dança. Eu simplesmente estava gostando de ver aqueles corpos se mover. E só. Com menos dilema, sem tanta conceitualidade ou arroubos políticos. Com uma tranquilidade de quem não quer estar em guerra como jagunço, só quer compartilhar “como imagina”, só precisa dizer á sua maneira….. e só. E isso pode ser bonito. Não importa o que era, sobre o que era, se era codificado, se era formal, se era cafona, se era da Bélgica, se tal elemento não se justificava dramaturgicamente, se tinha muita referencia do clássico, se era releitura… não importava. Era gente dançando e eu achava bom ver. Tinha uma vitalidade que me alimenta. E claro, como eu não tenho ainda trinta anos de ver gente dançando no HD da cachola, talvez ainda tenha aí nessa experiência um frescor, um prazer.
No caso de o que imagino sobre a morte, uma das coisas que mais me ocupava era poder ver corpos mais velhos dançando. (e olha que nem são tão velhos assim, né) Mas me dou conta que a maioria das coisas que assisto são de jovens criadores ou de jovens criadores em colaboração com não tão jovens outros criadores (affe). Articulações com quarenta, cinquenta anos de história é sempre diferente. Não sei porquê eu me lembrava o tempo todo da Dona Celita (mãe do Elielson) ou da Lenora (tia da Jana) quando olhava Esther. E talvez por isso, por essas conexões bem pessoais era tão bom vê-la se mover, sorrir, rolar. Tinha uma delicadeza feminina, apesar de Paulo e Toni.
Eu ficava pensando que o que eles imaginam sobre a morte era muito diferente do que eu imagino, mas e daí? As vezes é bom conseguir um certo aniquilamento da própria vontade e simplesmente estar ali….recebendo e encontrando um espaço em você para que o outro exista.
18 de setembro de 2011 em 18:12
Ontem houve uma ótima discussão depois do trabalho “o que imagino sobre a morte”, mas não somente relacionado ao que foi apresentado, mas principalmente sobre a forma do que fazemos\ como vemos nosso trabalho \ como falamos sobre o nosso trabalho \ como nos modificamos em espaços diferente. Carregar a verdade não é papel do artista pois a cada nova morte (ou pensamento sobre a morte diaria) os conceitos nossos ou dos outros são reconceituados e o artista é quem vive isso mais intensamente. pensar 1000 casa é pensar mil mortes mil revormulações de conceitos mil olhares que temos e mil outros que recebemos e mil vezes mil possibilidades de revelar nossas mortes\arte.
18 de setembro de 2011 em 18:14
No facebook fotos da Oficina com Esther Weitzmam na Escola de Dança aqui em Teresina.