Coincidencia,ou não, o primeiro trabalho do núcleo para criança, Menu de Heróis, surge no momento em que Antonieta, Bento, Téo, Eduarda e outros possíveis nomes começam a se fazer realidade. Em um ano novos e pequenos corpos, que estão nascendo do cruzamento de pessoas que estão muito perto de mim, estarão por aqui. Possivelmente estarão por aqui. Fico pensando: o que é importante dizer a uma criança hoje? O que eu gostaria de dizer a uma pessoa que ainda vai descobrir esse mundo tão grande, misturado e confuso?
Acho que eu diria: Olha cara eu mesma, ainda estou aprendendo isso, então fica o toque: tente sempre fazer algo, a partir do que está ao seu alcance, á sua volta, sem tentar começar pelo mais complicado, caro, grande, longe, por aquilo que está mais perto do outro do que que de você. Voce sempre pode começar com o quê está perto de você. Com QUEM está perto de você. Eu também gostaria de dizer que o mais legal é fazer qualquer coisa com outra pessoa, ou até com várias. Mas, (boa sorte!) isso é também o mais difícil na maioria das vezes. Acho que eu diria ainda, olha no fundo, no fuuuuundo……. o mundo nem precisa de mais e mais e mais coisas…. e mais e mais do mesmo. A gente só tem que organizar o que já existe de outras maneiras. Outros possíveis…
Eu também diria que acho divertida a idéia de ”super” herói, de uma pessoa que faz coisas incríveis. Mas sabe, não é legal precisar de alguém que salve a gente ou a lógica em que pessoas precisam ser salvas. Sobre super herois, lendas, caras da chaminé, papai do céu e todas essas coisas de “mentirinha” acho que eu diria: bem, nao importa se isso é verdade ou mentira. Essa tal verdade nem existe ( é bem assim: uma coisa que se chama verdade não é “de verdade”). Então relaxa, inventa e aproveita. Porque quando eu imagino algo essa coisa que eu imagino, ela acontece no meu corpo então, essa coisa, existe dentro de mim como uma informação. E toda idéia é física …..e só isso já é real!
Aliás…. tentando ajudar Weyla no release do Menu me deparei com o desafio de como falar pra uma criança sobre o que é realidade? Detesto a maneira dual: tipo real é o que voce e outra pessoa podem ver. Então todas essas outras coisas que a gente só imagina e todos esse “universo simbólico”de personagens e histórias e bla bla pra criança não é a realidade…. Aí a gente experimentava dizer…“realidade não é onde ficam todas as coisas que existem e eu conheço?” Mas peraí, tem um monte de coisa física que eu não conheço que é realidade. Os sons que só os cachorros escutam, os bichinhos que estão no nosso corpo, as ondas dos celulares, etc. É que com criança é diferente, real é o que elas conseguem sentir. E pronto, simples. Ao menos eu acho que é assim, real é tudo que cabe aí dentro, e já é. Se ela consegue sentir que tá voando….então ela tá voando e fim de papo. Claro, tem a fase em que elas começam a conceitualizar e discernir as coisas e o mundo….mas durante um tempo esse processo se mantém essencialmente físico, sensorial. Com a gente também, só que quando a gente já cresceu há muito tempo, parece que a gente vai desaprendendo coisas importantes. Parece que a gente sente algumas coisas e logo depois, só porque é adulto e pode analisar, avaliar, comparar, criticar, já vai logo se dizendo, eu SINTO ISSO…mas é só uma projeção, é só um fenômeno, é só uma reação, é só uma…um…. bla bla bla. Isso que eu sinto nunca pode ser só “uma coisa que eu sinto”, tem sempre que ter uma razão, um porquê, uma função…bla bla bla bla….
Como explicar a uma criança que o que precisamos fazer é a construção de outros possíveis? de outras realidades? e que isso sim é um grande “super poder”, isso sim pode tornar alguém herói.
Eu por exemplo tenho tentando inventar pra mim um outro “possível” que não tenha lógica, regra, horário, climão, prestação de contas, cobrança, pressão, mas ela parece ainda não fazer sentido. As vezes acho que como artista eu deveria ser mais “criança” e simplesmente me permitir descobrir. Mas não dá! A verdade é que o tempo tá sempre apitando e até agora, esse outro possível não cabe em nenhum lugar. Nem em mim mesma.
Amanhã Menu de Heróis estréia e começa uma outra trajetória, outra fase, de ajuste, de acréscimo, de descoberta… tem doído um pouco dançar mas isso é detalhe perto de todas as possibilidades que se desenham a partir desse trabalho. Simbora pra frente!