Paredão. Parede alta e grossa. Na geografia paredão pode ser de serra, de rio ou de recifes submersos. No entendimento geral paredão lembra fuzilamento, execução, bandido, policia, crime, violência, corrupção. Lembra também a realidade espetacularizada e vigiada dos realities shows. Paredão e’ o tal beco sem saída, o buraco sem fundo, linha solida invisível na concretude massiva do real. Paredão e’ o limite imposto por alguma forma de poder com o intento de aniquilar o individuo, o matar em vida só para que assista impotente o próprio fim.
Penso nesse paredão do Matadouro como o paredão dos eliminados, dos vencidos e fudidos, um lugar mais do que nada de “entre”. Uma espécie de condição de inter-mediação porosa que se da entre corpo e ambiente. O “entre” estaria ai instalado como lugar de indistinção principalmente entre o inumano e o humano, o publico e o privado, a vida e a morte.
Esse paredão seria portanto a condição de exceção a que todos estamos sujeitos, segundo Giorgio Agamben, exceção essa que encontra uma qualidade de resistência no apenas resistir ou na possibilidade de testemunhar, no
ser (corporalmente) o testemunho. Primo Levi sobrevive Auschwitz para escrever sobre o que “morreu” nele ali, e se joga da escada do pátio de sua casa depois de terminar o testemunho, consumando a própria morte. A condição de morto pode vir ainda em vida, assim como a de vivo pode “assegurar” uma condição de morto antes do fato onsumado. O limiar entre vida e morte produziriam portanto esse rasgo no corpo, uma lacuna que
acaba finalmente por o constituir.
A idéia de inumano me parece difícil de ser abordada em um espetáculo de dança como simples design de formas em um corpo. Esse corpo sem os artifícios da representação teria que aparecer como algo que “esteja inumano”, cheire a carne e vísceras, corpo presente na própria condição de violência, solidão e indiferença a que estamos submetidos como humanos(?) desse tempo. Humanos que vivem como sombras, como apenas uma estatística em índices de miséria, apartados de suas dignidades como cidadãos, desprovidos de direitos e amontoados como lixo, existem por todo o mundo. Os campos de exilados políticos na Europa e as favelas no Brasil são ícones dessa realidade fantasmagórica.
O Paredão como lugar do privado, seja em nossa vida cotidiana ou na arte, parece estar sempre “bem ali” atrás do muro. O privado deixa de ser apenas algo que nos interessa ou da prazer, uma intimidade exercida, para ser o lugar onde posso fazer o que normalmente não posso fazer . E a idéia que fazemos do que e’ publico esta geralmente associada a uma forma de poder externo, com seus mecanismos perversos de controle e submissão. Um poder imperceptível e sonso, estabelecido a priori para regimentar nossas percepções e ações.
E como se daria a condição de privado em uma situação de existência elimite? Numa condição tornada publica pela exposição e espetacularização? Jacob nos conta que no Japão os executados podem escolher entre serem mortos de frente ou de costas para seus executores. O que você escolheria? Cipó me pergunta porque tirar apenas as roupas intimas no paredão e me pergunto se ai também não tem um entre determinante. Seria a transitoriedade do publico X privado no corpo que não tem mais condição de fazer escolhas?
O paredão como suspensão no presente, como alargamento de um tempo que já vai passar de forma definitiva, exatamente como são todos os nossos tempos presentes. Paredão de onde se desenham os círculos de Bacon, geometria que encarcera as figuras para deixá-las ser apenas feixes de campos de força. Paredão de uma luta entre Tom e Jerry, gato e rato, cão e gato, onça e galinha, eu e você.
Matadouro para resistir inerte. Para perceber a percepção se entranhando no corpo.