Nesses tempos de entendimentos emergenciais para novo inicio de empreitadas com o Nucleo do Dirceu, recorro a um pequeno livro de Jacques Ranciere, de titulo preciso em frances: le partage du sensible, que se traduz como “a partilha do sensivel”, tendo como subtitulo, “estetica e politica”. Fala da juncao necessaria entre praticas esteticas e praticas politicas, e a relacao que se estabelece entre as duas no contexto da modernidade.
“Pelo termo de constituicao estetica deve-se entender aqui a partilha do sensivel que da forma aa comunidade. Partilha significa duas coisas: a participacao em um conjunto comum e, inversalmente, a separacao, a distribuicao em quinhoes. Uma partilha do sensivel e’, portanto, o modo como se determina no sensivel a relacao entre um conjunto comum partilhado e a divisao de partes exclusivas.”
Para Ranciere o sensivel seria portanto o fundamento de uma comunidade, aquilo que existe como comum adquirido, e ao mesmo tempo, a divisao desse sensivel entre partes envolvidas, como ato para fazer existir em sua completa potencia esse comum. O sensivel nao seria aqui um bem imaterial ou caracteristicas culturais comuns, e nada tem a ver com sensibilidade, sentimentos, tratamentos sociais. O comum como algo inviolavel, uma condicao humana substancial e inerente, possivel e necessaria de ser compartilhada.
Essa equacao proposta por Ranciere me leva diretamente ao nosso momento no Nucleo: o de avalir a nossa mao-de-obra, valorar nosso trabalho artistico e producional em quinhoes, partilhar nao apenas entre nos mas tambem com uma comunidade, o sensivel que nos abastece, que nos direciona, que tem sido a nossa participacao ativa em uma sociedade em plena ameaca de “sequestro do comum”.
Nao por nada ele defende a arte, a estetica como “sistema das formas a priori determinando o que se da a sentir. E’ um recorte dos tempos e dos espacos, do visivel e do invisivel, da palavra e do ruido que define ao mesmo tempo o lugar e o que esta em jogo na politica como forma de experiencia.” Para ele “A multiplicacao dos discursos denunciando a crise da arte ou sua captacao fatal pelo discurso, a generalizacao do espetaculo ou a morte da imagem sao indicacoes suficientes de que, hoje em dia, e’ no terreno estetico que prossegue uma batalha ontem centrada nas promessas da emancipacao e nas ilusoes e desilusoes da historia.”
Seria de boa hora comecar a colocar esse sensivel na balanca, pensar em estrategias de como mante-lo e multiplica-lo, para que possa expandir para fora de nosso controle, para alem de nossas expectativas. Penso no que diz abaixo puxando um fio de Ariadne, no que seria esse “sistema de evidencias sensiveis que revela, ao mesmo tempo, a existencia de um comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas.Uma partilha do sensivel fixa portanto, ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas.Essa reparticao das partes e dos lugares se funda numa partilha de espacos, tempos e tipos de atividade que determina propriamente a maneira como um comum se presta aa participacao e como uns e outros tomam parte nessa partilha. O cidadao, diz Aristoteles, e’ quem toma parte no fato de governar ou ser governado. Mas uma outra forma de partilha precede esse tomar parte: aquela que determina os que tomam parte.”
Citacao > Jacques Ranciere – A Partilha do Sensivel
Imagem > Thorsten Brinkmann