Penso, logo desisto

Por: às 13/05/2011 18:07:55




Pensando mais um pouquinho sobre como fazer deste triângulo PENSAMENTO – DISCURSO – AÇÃO um círculo, e transformar essa forma simples que é a mais firme, estrutural, estável, hierárquica, na forma mais simples do círculo, oscilante, instável, dinâmica, chego a conclusão nenhuma, desisto.

Estou às voltas com a pergunta do Fukushima: como superar o grande cansaço? Não sei bem o que fazer pra melhorar deste mal-estar da contemporaneidade, que a Olgária Matos me contou essa semana e eu entendi tudinho. Lembro do caso que o André Lepecki contava nas palestras do seu livro que eu não li, mas que se chama mais ou menos “dança exaurida”, ou “dança exaustiva”, sobre as críticas ácidas que a Vera Mantero recebia na estréia de sua peça “Uma misteriosa coisa disse E.E. Cummings”. Ao que ela dizia repetidamente durante toda a peça frases como – “uma impossibilidade, uma dúvida, um impedimento, atrozes” – sempre terminando suas frases com a palavra “atroz”, o público respondia à quase imobilidade dela em cena – “Artrose!”

Estamos como a família do filme “Home”, que a Ursula Meier dirigiu, enclausurados por nós mesmos na negação de uma situação que não podemos reverter, e que já prevíamos fazia tempo.

Na busca de tentar entender em mim mesmo o porquê dessa ânsia pelo contato com o outro, me pego em armadilhas de uma abordagem de documentarista que prefere conhecer sem se permear. Em que a relação com o outro é atravessada por uma mídia, intermediada por um microfone, supervisionada por uma lente. Penso sobre a experiência de uma filmagem como uma experiência essencialmente deslocada, que, sempre incompleta, aponta pra sua concretização posteriormente, na exibição do filme. Uma experiência de propósito futuro, uma promessa de ser, de fato, em outro espaço-tempo que não o de agora, da filmagem, do contato direto entre as pessoas. Será que estou realmente mais interessado nessa projeção do que no agora?

As artes performáticas tem o potencial político de ser a resistência por uma experiência do agora; eu diante de você e as infinitas possibilidades desse encontro, no mundo de desencontros, deslocamentos e desencantamentos em que vivemos. No mundo de promessas não cumpridas, de promessas impossíveis. E eu, com os dois pés fincados nesse mundo, sou vítima de mim mesmo, enquanto procuro uma idéia para uma ação que seja interessantíssima, com um discurso colocado claramente, uma documentação super bem pensada, que comunica super bem para a posteridade, mas escorrega no meio, no cerne da questão da performatividade:

EU + VOCÊ (AGORA)

O modelo de produção em arte (especialmente para a dança) que impera hoje agravou em nós muitos problemas, mas eu tendo a acreditar que o principal deles foi o de prescindir do público pra sobreviver. Passamos a depender principalmente de editais para pagar o nosso trabalho, e nosso discurso para sobreviver nesse regime de competição, que contempla uns poucos dentre todos misturados no mesmo balaio, tem como interlocutor uma elite do pensamento e/ou atuação política do campo artístico que se aplique, nas figuras das comissões de avaliação, ou ainda marqueteiros de grandes empresas que não fazem idéia e não dão a mínima. Terminado o processo, cumprido o cronograma, acertadas as contra-partidas, temos uma obra! Mas quase ninguém se dispõe a pagar um tostão qualquer pra assistir uma peça de dança, e ai do artista que já não tiver engatilhados outros tantos projetos esperando aprovação. Gira a roda da geração de obras natimortas. E claro, existem as exceções, como não podia deixar de ser… só que eu não conheço unzinho só que sobreviva do seu público. O público ficou de fora do mecanismo, e nossa distância dele fica cada vez maior. Agora nós temos que nos reconciliar não com o público, mas conosco, e tentar entender por quê diabos mesmo a gente faz isso que a gente faz? Pra quê? Pra quem?



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5 Comentários

  1. elielson disse:
    17 de maio de 2011 em 3:42

    leo, obrigado pelo seu texto.
    um ponto ficou forte pra mim:
    “conhecer sem se permear”

    será que isso é possível? conhecer sem fazer parte? sem se integrar? sem ter perdas?
    sem se misturar? sem se apropriar?

    Bj

    ah, tb pensei numa substituição: penso, logo insisto.


    Responder
  2. jana disse:
    18 de maio de 2011 em 20:31

    a velha dupla que tanto estamos falando sobre: desistir/instistir. Mudam somente 2 letras, mas mudam MUITO. e eu sempre acredito que a insistência potencializa.


    Responder
  3. Leo Nabuco disse:
    30 de maio de 2011 em 16:45

    Conhecer sem se permear… se é possível, não sei. Mas tem muita gente que acha que sim, ou acha que se permeia do outro mas nunca larga seu escudo, ou nem se dá conta que carrega ele pra todo lado.
    Eu particularmente tô mais interessado na esponja.
    Só não entendi a perda de que vc fala eli…

    (Muito feio da minha parte só responder você agora que eu volto a esse texto, eu sei.)


    Responder
  4. elielson disse:
    31 de maio de 2011 em 11:53

    eu penso que se permear pressupõe perda de algo, leozinho.
    do contrário, como há espaço pra receber o que vem do outro?

    penso ser necessário que algo tenha que ser jogado fora pra que seja possível caber o que vem, pra que alguém seja realmente permeado pelo outro e passe, nem que seja por exercício, a ver o mundo com outra ótica. e isso nunca é somente de uma mão, é influxo, é de mão dupla.

    há formas e formas de se experimentar, de perceber esse estado.
    tb não vejo ele como uma regra de convivência onde todos os artistas tenham que se enquadrar.

    NO ENTANTO, uma vez disposto a se permear penso que se tem que ver bem a maneira disso se dar.

    como ouvir e apreender o que vem do outro, sem se deterritorializar completamente, ou sem a morte de todos os órgãos vitais (como diria a deleuze), sem se perder de você mesmo (por isso falei do insistir, como mecanismo de sobrevivência)?

    bj


    Responder

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