Pra Pensar com a Helena

Por: às 05/01/2010 18:25:00


O melhor esteve fora do circuito oficial de exibição

Ritmo frenético de estreias não significou aumento de público nem da qualidade e, sim, a perda do potencial educativo de espetáculos

por Helena Katz, especial para o Estado

Num ano em que morrem Pina Bausch (30 de junho) e Merce Cunningham (28 de julho), a dança perde duas das suas mais importantes matrizes de pensamento. Ambos, cada um a seu modo, mudaram o mundo com a sua arte, nos ensinando a entender melhor a complexidade e a beleza da vida.

Aqui no Brasil, a situação não mudou muito. Continuamos marcando passo dentro dos mesmos mecanismos de distribuição de dinheiro (público ou público privatizado) via editais, e da regulação da produção através das Leis de Incentivo à Cultura. E as consequências desse sistema que estimula prioritariamente a produção se fizeram notar com maior nitidez. A cidade de São Paulo abrigou uma hemorragia de espetáculos, dado o ritmo frenético de estreias que pautou o ano da dança por aqui. O preocupante é que esse excesso de produção não resultou em um equivalente aumento de público, bem ao contrário, e, muito menos ainda, em uma transformação de quantidade em qualidade.

Uma rápida consulta ao circuito exibidor o revela como um canal pseudodemocrático, que programa da mesma maneira distintos trabalhos, sem sinalizar para o público o que diferencia uma coisa da outra. Obras de recém-formados são apresentadas no mesmo espaço ocupado por trabalhos de companhias de 15, 20 anos de existência, deixando escapar a possibilidade de fazer dessa mistura inespecífica uma profícua diversidade que sustentaria uma real democracia. O potencial educativo aí presente escorre pelo ralo porque os espaços exibidores simplesmente reproduzem a nefasta lógica dos editais, copiando a sua estrutura de enfiar todo mundo no mesmo saco.

Como os editais põem na rota da produção alguns que ainda não deveriam aí adentrar, o circuito exibidor programa todos sem critérios demarcatórios. Em um quadro desses, não espanta o fato de o público encolher, em vez de se expandir proporcionalmente. Torna-se urgente repensar o que vem sendo construído por esse sistema.

Fora do circuito oficial de exibição, felizmente vem se desenhando um outro, uma espécie de rota alternativa da maior relevância. Kasulo, o novo espaço inaugurado pela Cia. Borelli de Dança na Barra Funda, vem somar-se ao Lugar, da Cia. Corpos Nômades (João Andreazzi) e ao Estúdio Nave (Adriana Grechi) na difusão da dança. Cada qual realiza uma espécie de mostra de trabalhos: pela sexta vez, o Teorema ocorreu no Nave; o Lugar realizou o seu 2º Lugar Nômade Dança e o D(r)amas da Noite, e o Kasulo, a sua 2ª Mostra (In)Dependente de Dança. Com a mesma proposta de abrir o seu espaço de residência para atividades de interesse coletivo, a Associação Desaba (Cristian Duarte e Thelma Bonativa) promoveu, junto com a Projecta (Andre Fonseca), o Oxigênio, uma série de seis encontros para discutir a sustentabilidade da dança. O assunto parece, finalmente, começar a atrair o interesse de profissionais da área. O Festival Panorama de Dança, que ocorre anualmente no Rio de Janeiro, realizou o seu 2º Seminário de Economia da Dança e lá se formou um grupo de amplo alcance, reunindo membros de vários Estados do Brasil (Piauí, Pernambuco, Goiás, Amazonas, Bahia, Ceará, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Paraná, entre outros).

Nas suas criações, muitos artistas passaram a priorizar a investigação sobre seus processos. Dentre eles, destacou-se o Projeto DR, de São Paulo, formado por Tarina Quelho, Sheila Arêas, Mara Guerrero e Laura Bruno. Deixando claro o que pretendem, chamaram seu espetáculo, fruto de uma colaboração com Alejandro Ahmed (Cena 11, de Florianópolis) e Georgette Fadel (Cia. São Jorge de Variedades, de São Paulo), de Ensaio. Vai na mesma direção o Rumos Dança, projeto que ocorre bianualmente no Itaú Cultural, que decidiu, em fina sintonia com essa tendência, selecionar processos e não coreografias prontas, e vai exibi-los em 2010.

Este foi o ano em que Yvonne Rainer esteve pela primeira vez no Brasil. Trabalhou com bailarinos brasileiros, mostrou obras de referência histórica junto com as que está criando agora, deu palestra, cumprindo um formato que poderia ser um modelo para a vinda de artistas estrangeiros, uma vez que carrega uma força residual muito maior do que a de um simples mostrar de suas criações.

Há que se registrar também que o ano acaba de um modo inédito na cidade, apresentando, pela primeira vez, quatro montagens simultâneas do balé O Quebra-Nozes. Ninguém se surpreenderá se estiver sendo iniciada aqui uma nova “tradição”, dado o sucesso alcançado por essa primeira temporada. O bom será se essa “tradição” se consolidar com os dois Quebra-Nozes tipicamente paulistanos, o da Cisne Negro Cia. de Dança, que existe há 26 anos, ao lado da novíssima versão que o Ballet Stagium deu para esse clássico, batizando-o de Brincadeiras Natalinas. Não se trata de bairrismo, mas de identificar nelas respostas estratégicas para a dança, especialmente para a que se organiza longe dos clássicos de repertório. Elas materializam formas de autonomia, e autonomia é tudo o que a dança brasileira precisa, no momento.

photos > marcelo evelin



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1 Comentário

  1. elielson pacheco disse:
    5 de janeiro de 2010 em 23:59

    muito boa a reflexão da helena!
    serve muito para pensarmos em como gestar nosso pontão de cultura, no que diz respeito a democracia ou pseudodemocracia.

    acho muito interessante o seguinte trecho do texto de helena:

    "Obras de recém-formados são apresentadas no mesmo espaço ocupado por trabalhos de companhias de 15, 20 anos de existência, deixando escapar a possibilidade de fazer dessa mistura inespecífica uma profícua diversidade que sustentaria uma real democracia."

    penso que não devemos negar a produção recente em detrimento da produção fruto de 15 anos. mas tb não supervalorizar a ultima com relação a primeira.

    temos que agrupar e aumentar essa teia, acho que também no que diz respeito à dança popular, dança do ventre, dança clássica, pessoas interessadas em assitir com um pensamento contemporâneo que inclua e não exlclua por seus saberes atuais.


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