Qual o nível de afetação que esse momento nos traz?

Por: às 06/09/2011 15:01:19

Matadouro é um lugar ou uma condição? Esta foi a pergunta que Cristine Ghreiner fez, certa vez, ao Marcelo. Este foi o ponto de partida para a conversa de sábado, dois dias antes da apresentação  aqui em Santos.

Matadouro é indissociável de Marcelo Evelin –  porque fecha uma trilogia que faz parte da trajetória  especifica de um criador – e ao mesmo tempo indissociável de Núcleo do Dirceu – não do nome ou projeto, mas da condição  e da escolha dessas pessoas,  de tudo que configura(ou) esse lugar.  Descolando um pouco da trilogia Matadouro é  gerado de maneira imbricada a uma demissão coletiva compartilhada entre vinte artistas, a  um posicionamento politico perante uma cidade, a um conjunto de escolhas e um bloco de tempo (dois anos) em que o sentido, para todo mundo que estava ali, era muito claro:  luta.  Esse era o contexto. Essa era a condição. Uma condição compartilhada por esses corpos.  Por isso mesmo, Matadouro sempre se distanciou de uma obra  “encenada” porque essas palavras – luta, resistência, insistência – nunca foram imagens que suscitavam questões. O espetáculo sempre teve razoes muito claras próximas de nós pra existir.  Tava no corpo…pelo que se corria era real. Por mais  que cada um tivesse a sua luta,  por mais que a obra, enquanto  outra coisa que existe, se amplificasse no mundo e falasse de muitas outras lutas, de muitas outras resistências, de muitas outras escolhas, de muitos outros lugares e pessoas.

Mas se condição e lugar são duas coisas distintas, então,  que lugar é esse que esta obra Matadouro se tornou?  Será que ela continua em relação com  este outro lugar núcleo? E que condição era essa (a de antes ) que determinava aquele outro lugar núcleo (o de antes) ?

Para mim o núcleo por vezes parece uma grande invenção. Eu sempre achei que talvez por isso fosse de sua natureza morrer.  E o que eu queria mesmo era descobrir a maturidade e a  tranquilidade de outras culturas ao lidar com a morte.  Porque por aqui  parece que não conseguimos lidar com essa condição de instabilidade sem drama, sem sofrimento, sem dilema.   Para se reinventar, para não aderir, para não cristalizar numa forma,  parece que  a gente, constantemente, mata uma coisa e faz outra, quase como o corpo da lagarta que morre (porque deixa de existir enquanto  conceito)  e  se torna borboleta ( com uma outra constituição, com um outro significado, existindo a partir de outra possibilidade).

Eu hoje (sábado, dia em que comecei a fazer esse post), por um breve instante de lucidez,   não consigo falar sobre esse lugar  núcleo como uma coisa fora de  mim, com uma percepção de que estou falando de um outro corpo que não o meu. Eu tenho que falar do meu corpo, para falar o que é o lugar núcleo.

Eu  estou num processo de morte e anestesiamento.  Eu estou me morfuncionalizando como um x-man (já faz um tempo). Eu talvez já tenha morrido, por mais que isso pareça frase de “artista”. Aliás,  eu acho que se há algo que vem morrendo em mim,  é exatamente isso a artista . É exatamente assim que me sinto,  com a musculatura e as articulações engessadas, condição a que todo corpo chega quando  pára, quando  não consegue mais se mover. O corpo zumbi que tanto falamos nas oficinas de pensamento, nas residências artísticas, nos textos,  não é apenas o assunto IN nas rodas de pessoas contemporâneas.  Esse corpo que está morto,  com a sensibilidade anestesiada, esse corpo aniquilado pela indiferença é real.  Eu conheço um, ele tem um  número identidade 1555963 e duas iniciais  L.H.

Eu optei pela eutanásia, alguém que escolhe morrer, sem sofrimento, sem alarde, sem cantos tribais.  Sim, e nesse sentido eu até concordo, a minha morte nesse sentido nem é tão digna, solene, nem é tão  visceralmente experienciada, chorada convulsivamente.  Minha morte é  meio chique, uma morte clean e sofisticada como uma fuga,  uma cesariana teresina zona leste com data agendada entre cabeleireiro e anestesista , uma desistência indolor de alguém que que  injeta em si as substâncias necessárias  para o descanso, para a calmaria, para a nulidade, para o nada, para o estado de não consciência. E daí que a paz idealizada vai ser apenas outra invenção?

Minha morte tem sido  lenta e o anestesiamento é só  procedimento inicial. E sem subterfúgios do tipo “mas é o mundo  que me anestesia baby”,   eu me dou conta que isso tem sido uma escolha, e ainda assim, se “dar conta” não  encerra esse processo de morte.  Ou alguém duvida que morrer é sedutoramente tentador? Que não é algo que se possa querer, optar? Daqui de onde estou falando agora,  eu ainda me deparo com o dilema: permaneço e sigo no procedimento, tomo mais um remedinho?  É melhor tomar mais um remedinho e continuar..continuar morrendo…Ou escolho insistir e lutar? Novamente…de novo…eternamente…indefinidamente…sem garantias…? Com que propósito afinal?

Mas afinal, lutar pelo quê? Por quem? Com quem? Eu invejo os queimadores de ônibus, nesse sentido, porque para além da violência glamourizada há ali um propósito claro, um sentido, uma direção, um algo que é por todos.   E  eu não sei mais o que é isso. Tenho a leve sensação que já soube…eu digo, eu afirmo eu assumo, eu deixo claro: EU SOUBE. Porque  minhas escolhas já há algum tempo, passaram a ser por mim.  E quando alguém queima um ônibus, porque simplesmente decide e quer, bem aí, essa ação se desconfigura, ela significa outra coisa.

O meu corpo é um lugar de morte.  O meu corpo é  um lugar em que a doença se instalou. Uma doença poética, metafórica, relacionada a idéia de vínculo e do outro, rara. Uma síndrome que dói nas articulações dos ombros, braços e punhos, que que se materializa na ponta dos dedos – a extensão do meu corpo que ME DIGITA, que me descreve e mais me insere no mundo. Uma desorganização auto-imune. Minha maneira de lidar com isso tem sido me blindar, como um sistema que se protege do que lhe ataca.  Escolha equivocada, porque ao me fechar para o lugar que me constitui, eu me blindo de mim mesma.  Mas se  anestesiar parece ser sempre a primeira opção diante da dor. Nós já nascemos num mundo assim, em que desaprendemos a lidar com a dor.  O lance mesmo é ser feliz. Dor é algo que faz mal, que a gente elimina, combate, anula, pára. Então a maneira de lidar com aquilo que te causa dor, com o lugar que te causa dor,  com uma maneira que te causa dor, passa por aí também.

Eu sou um corpo fechado para o outro,  que não se importa mais com a lacuna, com a ausência. Eu sou alguém que compra seu próprio adaptador de computador porque isso é mais fácil do que tentar resolver a lógica coletiva de dividir espaço e equipamento. Alguém liga que eu simplesmente não me importo mais? Ora, mas se eu mesma não ligo.  Eu não me importo mais com os atrasos, eu não me importo mais se você faz ou não seu serviço, ou se você cumpre acordos (eu MESMA NÃO TENHO CUMPRIDO ACORDOS SIMPLES).

Eu não me importo mais se preciso ou não estar, porque não há ninguém dependendo ou esperando por mim, se eu me desconecto de todos, se eu sou autossuficiente, eu posso entrar  e sair quando eu CONSEGUIR.  E  veja, nem é tanto quando eu “quiser”…é sutilmente parecido, é só quando por alguns instantes meu pulmão se abre e por estar cheia de ar eu acho que ainda dá, que ainda posso, que ainda tem gás. Mas no fim das contas era só uma inspiração e dali a pouco eu esvazio.  Ir e estar quando se “quer” ou quando se “consegue” tem o mesmo efeito no fim das contas. E se tudo isto, este corpo doente, anestesiado, morto  é  de fato minha condição, isso configura sim, o lugar em que estou. Eu sou o Núcleo do Dirceu.

Marcelo nos diz: como é que vocês estão fazendo essa peça?

Se  antes existia, talvez, uma clareza do lugar em que se estava e de nossa condição, nesse momento acontece o mesmo?

Nesse momento  o Matadouro é também  um lugar de morte? Sim  porque  se o Matadouro esteve e está em relação com o Núcleo, com um tipo de organização que se fez pra trabalhar….. então  pode-se afirmar,  indo num extremo, que nós corremos o risco de virar uma granja?  Um lugar onde  não importa o frango…. corta-se a cabeça e se serve, é só articular a agenda?

Se meu corpo está morrendo, se eu estou morrendo, se o núcleo tá virando um lugar de morte, ( ou já ficou e a gente não conseguiu se dar conta) , e se a peça tem uma relação  (NÃO direta, SIM como outra coisa que não é  somente aquilo) ..mas que se relaciona…. mas e então o que se faz? Como se corre?   Como é a relação com esse lugar que agoniza,  mas que pode sobreviver? Matadouro não é sobre embate? Então qual é a luta de agora?  Como é que nós, que cada um,  se coloca em relação  a isso , a esse momento. Como que se passa de uma condição para um lugar (para esse lugar de agora?). Sim porque  passamos de uma  condição de estar sobrevivendo, de estar lutando, de estar resistindo, para um lugar.  E agora cada um vai ter, eu vou ter que tomar uma determinada postura em relação a este lugar. Ou não? Ou tudo bem, vamo fazer tranquilo…é isso aí mesmo.

Marcelo traz o lugar como um prato da balança, que está mais pesado, que não tá mais equilibrado,  e quando o prato da balança que  sobe  é o LUGAR , isso determina exatamente a CONDIÇÃO.  Como é que ficou mais forte a idéia de lugar, e o que faço aí? Como é que eu como esse espetáculo, sabendo que  o espaço em que ele se construiu é um espaço  que está gradativamente aos poucos  ficando fake,  deteriorado,  de um trabalho camuflado, suspirado, velado,  anestesiado (exagero definir assim?).

Será  que esse espetáculo também corre riscos, em se tornar esse lugar de anestesiamento, porque  se pode só correr…O ultimo espetáculo em Teresina, foi bom perfomáticamente, será que  já não estamos aprendendo?  Porque sim existe essa possibilidade de aprender a fazer, de fazer bem, de se garantir….  de ficar eficiente. Será que isso não traz um ponto importante  pra  se pensar que  é: o lugar de anestesiamento no Matadouro poderia ser o  lugar do glamour?  De ingressos esgotados, de bafá fá fá… Com que tipo de proposição e engajamento se sustenta o Matadouro?  Porque  existe sim o risco de  agora daqui em diante só vender, fazer uma turnê, articular  agenda internacional… resolver as substituições.  Será que o  Matadouro pode ficar fácil de fazer?

E se o que determinava esse espetáculo era uma condição, será que agora ele não pode ser a  possibilidade de sobreviver a esse lugar?  Até porque  gente pode decidir morrer…mas a gente pode decidir lutar. Qual é exatamente o chão do matadouro? Qual o nível de afetação que nos traz o momento em que nós estamos?

Será que essa nova configuração núcleo, com salário no primeiro dia útil, não nos traz uma outra condição?  Será que não tem um outro tipo de gasolina nos movendo um pouco mais  sofisticada, a gasolina  da indiferença.  Até que ponto a indiferença, ou o não se importar, não é em si a natureza da instituição. Porque  precisamos reconhecer que antes a idéia-instituição estava fora, era o outro, mas aos poucos ela veio se aproximando da gente. Até que ponto não digerimos a idéia de instituição e ela está alojada dentro de nós, em nossas vísceras como um verme que vem dentro do alimento-manutenção (que paradoxalmente deveria fazer bem, deveria alimentar esse corpo e torna-lo mais potente).

Agora é a gente mesmo. A dificuldade está em  nós. O inimigo está dentro. Não existe mais ao que resistir, não existe o outro, o fora. Então como é  que a gente acha o foco dessa luta? E quem ainda topa? Ainda aguenta? Quem ainda está vivo?

……………………………………………………………..

Layane Chico H. Xavier. (psicografando ensaios).

Matadouro se apresenta novamente, hoje,  na Bienal SESC de Dança em Santos(SP).



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4 Comentários

  1. marcelo Evelin disse:
    9 de setembro de 2011 em 18:16

    bom texto layane…gosto da agudez cirurgica das colocacoes e o risco de ve-las tombando precipicio abaixo. nao esquecamos que morrer e’ o que demanda o maximo de um ser humano, e’ a hora da tomada de consciência decisiva, e’ a hora que vc se diz assim: uiiii ta acontecendo aquilo que eu sempre soube que aconteceria.
    eu nunca morri literalmente, mas imagino que deve ser ao mesmo tempo medo e extase, definicao e libertacao, e acho essa combinacao massa.
    esse post bem que poderia ser a ignicao para uma conversa aberta a todos, onde colocassemos na mesa os apetrechos para um ritual de morte onde se tem que comer o morto canibalisticamente.
    o meu corpo nao aguenta mais e por isso insiste, ainda, aqui e agora.


    Responder
  2. L.H. disse:
    10 de setembro de 2011 em 12:17

    Sim, façamos um ritual de morte. E talvez essa morte seja encarada como uma passagem, não necessariamente por uma ótica literal, religiosa. Mas como um processo mesmo, como acontece na natureza, onde se passa pra uma oura condição, onde corpo ainda é substância, mas disposta de outra forma, operando de outra forma.

    Tenho ficado invariavelmente calada, quieta, nas oficinas de pensamento, nas conversas em torno da mesa, nas rodas de ensaio. E sinto que isso tem passado pelo lugar da indiferença (o botao foda-se ligado), do anestesiamento, do corpo que não aguenta mais. Mas que processualmente tem se tornado uma outra coisa. Foi muito precisa a imagem do corpo informe trazida pelo Peter e a conversa na Bienal com você, me fazem entender mais esse processo de morte e silêncio. Por isso encaro com tranquilidade o risco das colocações cairem precipicio abaixo e eu numa tomada de fôlego levantar e dizer peraí…ainda não. Ainda dá.

    Usemos o post como ignição, porque o Matadouro, principalmente nessa ultima viagem, tem sido o lugar onde estou encontrando algum “sentido”. Seria bom que nossas conversas pudessem ser o lugar onde a gente descobrisse outros…outros e outros… falemos de nossa morte, do que nos cerca, do que nos move, do que sentimos. bjo.


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  3. Rossi disse:
    8 de fevereiro de 2012 em 15:50

    a morte. tá acontecendo aquilo agora que acontece todos os dias, mas desta vez será a última vez. chegou minha última hora.
    mas eu quero que minha morte diária seja lutando. assim como o núcleo fez e faz. e cruzo os dedos que siga fazendo. com ou sem instituição.

    “Agora é a gente mesmo. A dificuldade está em nós. O inimigo está dentro. Não existe mais ao que resistir, não existe o outro, o fora. Então como é que a gente acha o foco dessa luta? E quem ainda topa? Ainda aguenta?”

    só não acho que a dificuldade está somente em nós.
    ela está por aí, passeando, em cada esquina preconceituosa, em cada cabeça retrógrada, em cada produto de massa, em cada financiamento que não é concedido, em cada financiamento concedido mas com 500 condições, em cada doença real e virtual, em cada faltadeamorepaciência, em cada norma e regra social chata e desnecessária.
    mas acho sim que cm tanta dificuldade pipocando por tudo quanto é lado, o difícil mesmo é achar o foco da luta. e aí a dificuldade tá em nós, aí é com a gente mesmo.
    sei lá o que será. só sei que também ando pensando muito em meus embates e lutas. vou botar meu sangue em que?
    beijo do frio.


    Responder
  4. Layane Holanda disse:
    8 de fevereiro de 2012 em 19:40

    Rossi queridona, boa tua visita, demais. Vamos conversar mais pelo face. Bjo do calor. =)


    Responder

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