Com o passar do tempo assistir ao Matadouro foi se tornando difícil. Sim difícil. Isso porque, suponho, eu sou uma das pessoas que mais assistiu esse espetáculo até hoje. Lá atrás….na trajetória de criação, ensaio após ensaio, ver o sistema girando, girando, girando, o povo correndo, correndo, correndo de novo, ver, ver, ver de fora, ver de novo….foi transformando pra mim a coisa toda numa paisagem. O olho não descansava.
As vezes eu me pegava só ouvindo num estado próximo da distração e o olho funcionava como um foco de câmera que se ajustava a todo instante. Então pensava: essa sensação de paisagem deve existir também na experiência de público. Um carrossel que não se altera e te transporta pra um outro lugar, onde você também vai ficando tonto e acaba saindo e entrando ali no que acontece à sua frente, em em você mesmo, em outra coisa, ali de novo. Mas o que se passava comigo não era a experiência de publico,claro, era ver de novo aqueles corpos correndo, e de novo, e de novo e saber que eu precisava continuar vendo. Aí é que foi ficando difícil. Nem mesmo a ação de “checagem”, um olho mais técnico, tomando notas – mesmo isso sendo necessário – era suficiente. A ação de ver, ali de longe sentada, tinha que ser de outra natureza. Eu tinha que não desistir de ver como os que não desistem de correr.
Então comecei a encontrar maneiras que fizessem sentido pra mim, pra que não fosse funcional, para que meu olho não cansasse e os ensaios não virassem paisagem. E essas maneiras foram variando com o tempo. Ás vezes eu me movia e ficava dando uns saltos que nem uma doida nos ensaios, as vezes eu escrevia no computador coisas técnicas para mim mesma tipo “25,36 cai… ver volume no segundo movimento”, outras vezes eu antecipava o que eu já sabia que ia acontecer pra mim mesma “agora o Fabio vai girar”, ou escolhia ver só uma pessoa e ficava um tempo só com aquela pessoa, ou ver só as pintas e ficar vendo só pinta, outras vezes eu pensava no núcleo, muitas vezes eu pensava no núcleo. E enxergava bem ali naquela roda metáforas acertadissímas para o nosso funcionamento, e construía exemplos que eu prometia a mim mesma trazer numa reunião ou num post. Essas maneiras iam alimentando meu olho para poder continuar vendo e vendo de novo.
Isso durou um tempo, até próximo da estréia. E só depois eu entendi que mesmo com todas essas tentativas e maneiras eu, ainda assim, não podia operar o som e só “assistir” ao ensaio ou apresentação do Matadouro. Eu tinha era que fazer o Matadouro à minha maneira. Mesmo que não fosse correndo. E passei a fazer as apresentações também de máscara, e só tirá-la ao final, como todos, numa conexão com o que era perfomado. E passei a insistir em me manter em ação com todo mundo (e não apenas “dar um play e garantir o fade out”). Porque aquela insistência, aquela luta, aquele cansaço, aquele dedo, aquela tentativa de se manter num sistema precário, aquela escolha era(é) também minha.
Bem, escrever até aqui, sobre como é fazer o Matadouro pra mim foi um fluxo …….isso porque esta semana eu fiz novamente o Matadouro.
Esta semana nós fizemos de novo o Matadouro. Pela primeira vez no Teatro 04 de Setembro dentro do Festluso. E tô achando difícil traduzir a experiência “teatro oficial de teresina” num post.
Fico com vontade de descrever em detalhes o dia (estressante) no espaço, na coisa técnica de montagem e a partir disso refletir sobre essa cidade, sobre uma lógica da “dificuldade” ou do “tá bom assim, já é vantagem tá desse jeito” ainda instaurada aqui. Principalmente no espaço oficial, público. E sobre a importância da gente propor insistentemente – como artistas – uma outra lógica, uma outra postura, um outro nível de exigência e rigor, mesmo que isso seja equivocadamente tomado como arrogância. Paciência.
Fico com vontade de descrever a relação tensa, dramática, sofrida, estressante durante o dia entre nós enquanto organização, grupo, coletivo, elenco (seja que nome for) e a partir disso refletir sobre como nos comunicamos, o que são mesmo posturas profissionais, como convivemos, sobre vínculo (não apenas com esse espetáculo, enquanto projeto pontual, mas com tudo que ele significa e carrega).
Fico com uma vontade nostálgica de compartilhar em como me senti voltando a me apresentar no Teatro 04 de Setembro depois de tanto tempo. Porque foi um espaço que ocupei cronologicamente por mais de uma década e pode parecer bobo, mas metaforicamente é minha “espécie de terra natal”. De como foi estranho me perceber vinculada e ao mesmo tempo tão desvinculada daquela visão de mundo, daquelas pessoas, daquela idéia toda oficial.
Fico com vontade de levantar as implicações políticas dessa aproximação, dessa bandeira branca, dessa apresentação pontual que encerrou o Festival Internacional da Cidade.
Matadouro aconteceu e o público ficou, poucas pessoas foram embora durante o espetáculo. O que até me espantou, porque via de regra, muita gente sai durante. Tenho que dizer que me desaponta imaginar que as pessoas ficaram por “educação” como se pode sugerir (+ no site do Festiluso). e não por um interesse ou curiosidade. Explico: sugerir que em Teresina as pessoas permanecem em qualquer espetáculo, seja ele qual for, por educação, é de certa forma tomar o público como algo homogêneo e domesticado, isto é, que a priori o que temos são espectadores atados a convenção do “bom mesmo é fingir que gostou e ficar até o fim pra sair bem na fita”. Pode parecer muito otimista, mas, particularmente me desaponta esse entendimento como ponto de partida. Será mesmo que ainda estamos aí? Será mesmo que o “principio da educação de província” é o que ainda nos configura?
Bem pra diminuir meu desapontamento, no dia seguinte encontrei um amigo na faculdade que saiu em 15 minutos do Matadouro, e me disse “Layane, eu preciso ser honesto, achei aquele espetáculo um desrespeito comigo, e não gostei”. E eu pensei ! Opa! Coisa boa encontrar alguém que não se sente na obrigação de ser “educado”. E aí fomos conversar. O papo rendeu até chegarmos a metáfora do pequi ( que pra ele Matadouro era como pequi, ou você gostava muito ou odiava, não tinha meio termo). E eu pensei, ta aí, alguém que foi honesto e espontâneo, alguém que simplesmente se colocou de maneira clara, livre, sem impedimentos ou protocolos! O que me faz pensar, por outro lado, na grande parte do público que escolheu ficar e assistir por essa mesma ótica. Afinal, seguindo na metáfora, eu mesma conheço um monte de gente que adora pequi.
Me fez pensar que aos poucos, o que as pessoas vem conquistando é a terra da autonomia onde necessariamente “não se tem que….”
E eu vou continuar essas reflexões nos comentários, porque o texto ficou muito grande.
(No site do Festival também escreveram sobre a apresentação. Clica!).
6 de setembro de 2011 em 3:39
estranho, lay. lendo esse texto e não estando no teatro neste dia, fica uma sensação no seu post que todo mundo que estava lá e ficou até o final era somente por educação. acho que isso tb é uma generalização, eu não acredito que tenha sido assim, principalmente por ser o Matadouro, e a metáfora do pequi é ótima. e também nem sei se a regra é essa que vc colocou. pra mim talvez seria assim: eu não vou sair porque me ensinaram que não se sai no meio de um espetáculo. Isso é muito importante e o palco é um lugar sagrado.
6 de setembro de 2011 em 13:59
oxe..mas eu estou dizendo exatamente o contrario Jana… talvez voce tenha lido rápido. Quem sugeriu isso (que as pessoas ficaram por educação) foi o Maneco, no texto que esta linkado aí no meu post. E na verdade me desaponta ele pensar assim dessa forma. Porque acho que a gente sempre generaliza o público, a cidade em adjetivos como “provincia”. E acredito que não dá mais pra olhar pra esse lugar assim, aqui é como qualquer outro lugar do mundo, as pessoas ficam porque querem ficar…ué.
Achei que tivesse ficado claro. bjo.
8 de setembro de 2011 em 1:11
agora ficou claro!