Um mutirão é assim:
São muitas pessoas, mas cada uma pode escolher com autonomia se quer fazer parte de um agrupamento (pra levantar uma coisa pesada por exemplo) ou se quer fazer uma tarefa sozinha ( como diluir a tinta). Cada pessoa espontaneamente decide ir, bem como, decide o quê realmente quer fazer.
Você pode ser alguém que fica muito sujo – e achar isso ótimo e divertido – ou alguém bem fresco que odeia tinta no cabelo. Você pode ser alguém que tem muita força e resistência, ou alguém que não pode ficar em pé muito tempo. Você pode precisar de uma “dose” de mangueira pra trabalhar melhor, ou precisar de uma soneca rápida pra agüentar o dia todo. Você pode preferir ir comer em casa e voltar ou ficar o dia todo e ir embora mais cedo. No mutirão tá todo mundo num mesmo plano e condição, mas as individualidades são preservadas e definitivamente isso é possível de ser negociado. É difícil mas não é tãaooo utópico assim.
Um mutirão se organiza por dois sinônimos super simples: rodízio e revezamento. Você dá o que pode, sinaliza e fica tranqüilo porque outra pessoa vai lhe cobrir quando você parar. Lindo isso né!
Não existe uma cobrança ou comparação para tarefas pequenas e grandes. Quem está fazendo uma coisa maior como pintar um paredão beem alto é tão necessário como alguém que está concentrado no detalhes das correções dos cantos e rodapés . Todo mundo sabe que são tarefas diferentes, mas importantes. E que uma potencializa a outra.
Num mutirão a divisão de funções é clara – alguém apanha o lixo, alguém faz a comida , alguém muda a música – mas isso muda a todo instante, porque a responsabilidade não é de um, ela apenas ESTÁ com um naquele instante. Na verdade a responsabilidade é de todos , porque ela nasce de um engajamento e de um compromisso que é maior. Função é maneira de organizar apenas.
Acontece o tempo todo de você se deparar com uma “cagada” ou um “vacilo” de alguém tipo deixar a água da mangueira escorrer em direção aos papelões que estão sendo usados. Mas aí não há tempo pra ir atrás de culpados, nem existe espaço pra uma indiferença do tipo “ eu não estou usando o papelão isso não me diz respeito”. Na verdade você tira o papelão do lugar, resolve o problema e comunica bem alto gritando . Na verdade se for a segunda vez cabe até um ligeiro esporro contundente “genteee, que merda, desliga aí a mangueira!!! ” . Aí você volta a fazer o que você estava fazendo e pronto! É simples e rápido. E não tem climão.
Outra coisa engraçada é que num mutirão você se surpreende a todo instante. Quando você olha em volta tem sempre uma coisa nova acontecendo, alguém que derrubou algo, alguém que ta sorrindo de uma piada, alguém dançando engraçado, alguém discutindo seriamente por uma bobagem, uma pessoa que acabou de chegar, outra que saiu e você nem viu, alguém que não leva o menor jeito pra aquilo mas que está insistindo e acreditando numa coisa que tá fazendo. Enfim… a paisagem é dinâmica e o ambiente vai mudando num fluxo frenético e constante.
E é por isso que acontece de vez em quando alguém precisa parar e dá uma avaliada, vê o que tá faltando, ou sugerir por onde retomar. Tem sim essa função super necessária de lançar um olhar geral sobre a produção, sobre o ritmo da obra, sobre a decisão de se antecipar e comprar mais tinta, porque quem está pintando não se deu conta que vai acabar. Avaliar não é um lugar tãão diferente dos outros. Ele é só uma predisposição, um estado de prontidão que se converte em ação. Pode ser simples, como alguém que fica atento ao horário e toma a iniciativa de “fazer a vaca” do almoço porque daqui a pouco a fome vai apertar pra todo mundo.
O mutirão tem uma atmosfera divertida, leve e engraçada. Mas ele não fica só nisso entende? Porque aí ele vira “enrrolação”. Pra coisa não parar de andar todo mundo fica no exercício de manter o gás e não deixar a peteca cair. E o acordo é claro, todo mundo sabe que aquele clima legal, amistoso ( gostoso mesmo!!) só faz sentido se vier acompanhado de uma coisa: do trabalho. É por isso que tá todo mundo ali, pelo trabalho. Mas dá pra fazer isso sim, sendo amigo! É até melhor.
Num mutirão mesmo com muito trabalho pra fazer, existe a chance de você ser aceito sendo ruim, patético e ridículo. Todo mundo vai topar ouvir você cantar música em karaokê do youtube, mesmo que seja chato de aguentar porque você canta ruim pra caralho!!! E isto NÃO é uma condescendência, é porque as músicas bregas e românticas, são na verdade mensagens. E deve haver espaço pra que afetividade se manifeste de todas as formas.
Você vê cenas como essa: um cara com muita dificuldade pra abrir uma lata de tinta e o outro de boné que tava apenas passando por perto, numa mesma trajetória, pára por um momento pra ajudar a abrir a tal lata com um ferro, ferro esse que originalmente era pra outra coisa que nem ia ser feita ali. Porque num mutirão o mais bacana é que tudo pode ser “desfuncionalizado” em prol da colaboração. E é claro que essa colaboração coletiva sofre distorções. Também acontece de você comprar uma cerveja, e distraidamente quando vai colocar seu segundo copo, você só tomou um, porque a galera já detonou sua garrafa. Mesmo que você tenha pago a Skol sozinha! (foda)Aí você entende que é um equilíbrio precário. Não tem jeito é dificil!
Nesse lugar de mutirão experiência não é uma coisa cumulativa que você já conquistou e pronto. Aqui você pode ser muito jovem, muito velho ou muito famoso, mas você vai encontrar no outro alguma coisa que ele sabe fazer de um jeito diferente do seu. E aí é só ter abertura pra aprender e incorporar em você seja prestando atenção de longe, ou indo lá perguntar. Passar verniz todo mundo consegue, mas de maneira muito sutil é possível fazer a lata render mais.
Muito importante: não faz tanta diferença de onde você ,que língua você fala – inglês, theco, espanhol, português- ou qual a sua profissão/formação – pedreiro, coreografo, vendedor de beiju, cineasta, – porque na verdade quando agenciamos nosso corpo em função de uma coisa que acreditamos e queremos fazer, todo mundo se entende. Todo mundo se compreende porque o discurso está depositado nos braços, músculos, mãos e pernas.
Pra mim mutirão é a maneira mais sensorial-física-suada-cognitiva de se entender o que pode ser um coletivo.
Sim, o Marcelo estava certo, mutirão é uma metáfora para o núcleo do dirceu.
12 de julho de 2010 em 1:24
legal, lay!
mas eu diria diferente: o mutirão não é melhor de fazer sendo amigo. ele é melhor porque todo mundo queria estar lá, contribuir, fazer o que podia, sendo amigo ou não.
todos tinham um mesmo objetivo e fizeram com que ele se concretizasse. nem dava tempo de climão, conversas intermináveis, achismos, “e se”…
ficou lindo o galpão!
13 de julho de 2010 em 10:18
Jana concordo que as coisas nao acontecem, PORQUE se é amigo. Isso não é uma condição. Sendo amigo ou não as pessoas queriam estar lá. E o que reune individuos em qualquer tipo de “convocação” dessa natureza é outra coisa mesmo. Elas estão lá por outros motivos e razões.
Mas me desculpa, é beeeem pessoal talvez: é sim melhor quando existe a possibilidadede de se ser amigo. (pelo menos pra mim). E quero continuar deixando espaço pra que isso exista TAMBÉM.
beijo cat.
ficou lindão mesmo! arrasou!
13 de julho de 2010 em 12:31
O melhor dessa convivencia do Nucleo sempre foi a possibilidade de se reinventar,reinstalar,reinverter,regenerar,reinscrever…eu como FINADA, fico feliz too much de ver as coisas e pessoas tão vivas!!!
14 de julho de 2010 em 0:39
Gente a conversa tá boa, mas coloca umas fotinhas do Galpão depois dos trabalhos que estamos curiosos…
bjs
14 de julho de 2010 em 3:12
Ei Sol, bom demais te ver aqui.
Finada nada!! Jà que tu listou um monte de palavra com re, eu vou papocar: pois REssussite! Um beijão.
E Angela, tenho mesmo que colocar fotos de depois dos trabalhos, mas nao tirei na minha cam. Tô no aguardo. =(
Beijão pra você também.
15 de julho de 2010 em 10:42
Nice post Layane!
19 de julho de 2010 em 12:14
Sim, o Elielson pode ser o mais famoso via TTA, mas tu ainda é a que posta mais no site! hehe
=***
22 de julho de 2010 em 20:10
ei…. nem tem foto minha… mas eu tava no mutirão também!!
inclusive tirando fotos!
hahahahahahah
27 de julho de 2010 em 1:59
como sempre fiquei na cozinha(KKKKK), mas a comida rendeu e revitalizou.