Reflexão da semana: mutirão

Por: às 11/07/2010 14:44:17

Um mutirão é assim:

São muitas pessoas, mas cada uma pode escolher com autonomia se quer fazer parte de um agrupamento (pra levantar uma coisa pesada por exemplo)  ou se quer fazer uma tarefa sozinha ( como diluir a tinta). Cada pessoa espontaneamente decide ir, bem como, decide o quê realmente  quer  fazer.

Você pode ser alguém que fica muito sujo – e achar isso ótimo e divertido –  ou alguém  bem fresco que  odeia  tinta no cabelo.  Você pode ser alguém  que tem muita força e resistência, ou alguém que não pode ficar em pé muito tempo. Você pode precisar de uma “dose” de mangueira  pra trabalhar melhor, ou precisar de uma soneca rápida pra agüentar o dia todo.  Você pode preferir ir comer em casa e voltar ou ficar o dia todo e ir embora mais cedo. No mutirão tá todo mundo num mesmo plano e condição, mas as individualidades  são preservadas e definitivamente isso é possível de ser negociado.  É difícil mas não é tãaooo utópico assim.

Um mutirão se organiza por dois sinônimos super simples: rodízio e revezamento.  Você dá o que pode, sinaliza e fica tranqüilo porque outra pessoa vai lhe cobrir quando você parar. Lindo isso né!

Não existe uma cobrança  ou comparação para tarefas pequenas e grandes.  Quem está fazendo uma coisa maior como pintar um paredão beem alto é tão  necessário como  alguém que está concentrado no detalhes das correções dos cantos e rodapés . Todo mundo sabe que são tarefas diferentes, mas importantes. E que uma potencializa a outra.

Num mutirão  a divisão de funções é clara – alguém apanha o lixo, alguém faz a comida , alguém muda a música  – mas isso muda a todo instante, porque a responsabilidade não  é de um,  ela apenas ESTÁ com um naquele instante. Na verdade a responsabilidade é de todos , porque ela nasce de um engajamento e de um compromisso que é maior. Função é maneira de organizar apenas.

Acontece o tempo todo de você se deparar com uma “cagada” ou um “vacilo”  de alguém  tipo deixar a água da mangueira  escorrer em direção  aos papelões que estão sendo usados. Mas aí não há tempo pra ir atrás de culpados,  nem existe espaço pra uma indiferença   do tipo “ eu não estou usando o papelão isso não me diz respeito”.  Na verdade você  tira o papelão do lugar, resolve o problema e comunica bem alto gritando . Na verdade se for a segunda vez cabe até um  ligeiro esporro  contundente “genteee, que   merda, desliga aí a mangueira!!! ” . Aí você  volta a fazer o que você  estava fazendo e pronto!  É simples e rápido. E não tem climão.

Outra coisa engraçada é que num mutirão você se surpreende a todo instante. Quando você olha em volta  tem sempre uma coisa nova acontecendo, alguém que derrubou algo, alguém que  ta sorrindo de uma piada, alguém dançando engraçado, alguém discutindo seriamente por uma bobagem, uma pessoa que acabou de chegar, outra que saiu e você nem viu, alguém que não leva o menor jeito pra aquilo  mas que está insistindo e acreditando numa coisa que tá fazendo.  Enfim… a paisagem é dinâmica e o ambiente  vai mudando num fluxo frenético e constante.

E é por isso que acontece de vez em quando alguém precisa parar e dá uma avaliada, vê o que tá faltando, ou sugerir  por onde retomar. Tem sim essa  função super necessária  de lançar um olhar geral sobre a produção, sobre o ritmo da obra, sobre a decisão de se antecipar e  comprar mais tinta, porque quem está pintando  não se deu conta que vai acabar.  Avaliar não é um lugar tãão diferente dos outros.  Ele é só uma predisposição, um estado de prontidão que se converte em ação. Pode ser simples, como alguém que fica atento ao horário e toma a iniciativa de “fazer  a vaca” do almoço porque daqui a pouco a fome vai apertar pra todo mundo.

O mutirão tem uma atmosfera divertida, leve e engraçada. Mas ele não fica só nisso entende? Porque aí ele vira  “enrrolação”. Pra coisa não parar de andar todo mundo fica no exercício de manter o gás e não deixar a peteca cair. E  o acordo é claro, todo mundo sabe que aquele clima legal, amistoso ( gostoso mesmo!!)  só faz sentido se vier acompanhado  de uma coisa:  do trabalho.  É por isso que tá todo mundo ali, pelo trabalho. Mas  dá pra fazer isso sim, sendo amigo! É até melhor.

Num mutirão mesmo com muito trabalho pra fazer,  existe a chance de você ser aceito sendo ruim, patético e ridículo. Todo mundo vai topar  ouvir você cantar música em karaokê do youtube, mesmo que seja chato de aguentar  porque você canta ruim pra caralho!!! E isto NÃO é uma condescendência, é porque as músicas bregas e românticas, são na verdade mensagens.  E deve haver espaço pra que afetividade se manifeste de todas as formas.

Você vê cenas como essa:  um cara com muita dificuldade pra abrir uma lata de tinta e o outro  de boné que tava apenas passando por perto, numa mesma trajetória,  pára por um momento pra ajudar a abrir a tal lata com um ferro,  ferro esse que originalmente era pra outra coisa que nem ia ser feita ali.  Porque  num mutirão  o mais bacana é que tudo pode ser “desfuncionalizado” em prol da  colaboração.   E é claro que essa colaboração coletiva sofre distorções.  Também acontece de você comprar uma cerveja, e distraidamente quando vai colocar seu segundo copo, você só tomou um, porque a galera já detonou sua garrafa.  Mesmo que você tenha pago a Skol sozinha! (foda)Aí você entende que é um equilíbrio precário. Não tem jeito é dificil!

Nesse lugar  de mutirão experiência não é uma coisa cumulativa que você já conquistou e pronto.  Aqui você pode ser muito jovem, muito velho ou muito famoso,  mas você  vai encontrar no outro alguma coisa que ele sabe fazer de um jeito diferente  do seu. E aí é só ter abertura pra aprender e incorporar em você  seja prestando atenção de longe, ou indo lá perguntar.  Passar verniz todo mundo consegue, mas de maneira  muito sutil  é possível  fazer a lata render mais.

Muito importante: não faz tanta diferença de onde você ,que língua você fala – inglês, theco, espanhol, português-  ou qual a sua profissão/formação – pedreiro, coreografo, vendedor de beiju, cineasta, –  porque na verdade quando  agenciamos nosso corpo em função de uma coisa que acreditamos e queremos fazer, todo mundo  se entende. Todo mundo se compreende porque o discurso está depositado nos braços, músculos, mãos e  pernas.

Pra mim mutirão é a maneira mais  sensorial-física-suada-cognitiva  de se entender o que pode ser um coletivo.

Sim, o Marcelo estava certo, mutirão é uma metáfora para o núcleo do dirceu.



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9 Comentários

  1. jana disse:
    12 de julho de 2010 em 1:24

    legal, lay!
    mas eu diria diferente: o mutirão não é melhor de fazer sendo amigo. ele é melhor porque todo mundo queria estar lá, contribuir, fazer o que podia, sendo amigo ou não.
    todos tinham um mesmo objetivo e fizeram com que ele se concretizasse. nem dava tempo de climão, conversas intermináveis, achismos, “e se”…

    ficou lindo o galpão!


    Responder
  2. Layane disse:
    13 de julho de 2010 em 10:18

    Jana concordo que as coisas nao acontecem, PORQUE se é amigo. Isso não é uma condição. Sendo amigo ou não as pessoas queriam estar lá. E o que reune individuos em qualquer tipo de “convocação” dessa natureza é outra coisa mesmo. Elas estão lá por outros motivos e razões.

    Mas me desculpa, é beeeem pessoal talvez: é sim melhor quando existe a possibilidadede de se ser amigo. (pelo menos pra mim). E quero continuar deixando espaço pra que isso exista TAMBÉM.

    beijo cat.
    ficou lindão mesmo! arrasou!


    Responder
  3. Porttelinha disse:
    13 de julho de 2010 em 12:31

    O melhor dessa convivencia do Nucleo sempre foi a possibilidade de se reinventar,reinstalar,reinverter,regenerar,reinscrever…eu como FINADA, fico feliz too much de ver as coisas e pessoas tão vivas!!!


    Responder
  4. Angela disse:
    14 de julho de 2010 em 0:39

    Gente a conversa tá boa, mas coloca umas fotinhas do Galpão depois dos trabalhos que estamos curiosos…

    bjs


    Responder
  5. Layane disse:
    14 de julho de 2010 em 3:12

    Ei Sol, bom demais te ver aqui.
    Finada nada!! Jà que tu listou um monte de palavra com re, eu vou papocar: pois REssussite! Um beijão.

    E Angela, tenho mesmo que colocar fotos de depois dos trabalhos, mas nao tirei na minha cam. Tô no aguardo. =(
    Beijão pra você também.


    Responder
  6. rob disse:
    15 de julho de 2010 em 10:42

    Nice post Layane!


    Responder
  7. Ludmila disse:
    19 de julho de 2010 em 12:14

    Sim, o Elielson pode ser o mais famoso via TTA, mas tu ainda é a que posta mais no site! hehe

    =***


    Responder
  8. jana disse:
    22 de julho de 2010 em 20:10

    ei…. nem tem foto minha… mas eu tava no mutirão também!!
    inclusive tirando fotos!
    hahahahahahah


    Responder
  9. Weyla disse:
    27 de julho de 2010 em 1:59

    como sempre fiquei na cozinha(KKKKK), mas a comida rendeu e revitalizou.


    Responder

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Comentários

  • ju: Muito bonito! Tem muito caldo nessa idéia de baiar e exceder a individualidade a partir de um ambiente gerado por...
  • Kayoo': Muito Bom Muito Lindo e Muito “Estigador “
  • Layane Holanda: pois é tem um tom meio “bacaninha” mas sabia que eu gosto da cara de pau, é meio...
  • L.H.: que lindasssssss……so peguei os vestigios, comentários e impressoes da tarde. Que lindo o...
  • Jell: o massa é que tem imagens que acho que por si só já me abrem outras imagens dentro delas(mesmo sem manipular no...

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