Retrato de família ou A+B+C+D=imagem

Por: às 14/02/2011 00:36:25

Pensei em criar um “retrato de família” que seja uma imagem construída a partir de dados reais e arbitrários (ou fictícios) em um trabalho compartilhado com os moradores da casa. Antes de entrar nos detalhes dos procedimentos e da relação com os moradores, acho que é importante entender o que tenho pensado sobre o conceito desse retrato, as referências e as motivações primeiro pra tentar visualizar um pouco, ai vai…

O retrato
Queria propor um retrato que na verdade fosse um vídeo. Um vídeo retrato. A linha do tempo segue, mas a imagem construída permanece praticamente a mesma, como uma fotografia. Esse “praticamente” me interessa. Acho que pode existir uma possibilidade interessante de se pensar performatividade. Enquanto o modelo, performador, morador volta a consciência de sua ação para a imagem congelada (foto), o que mais importa acontece na linha do tempo (vídeo), nas brechas da intenção de performar.
Iniciei ano passado um trabalho de vídeo retratos com a minha família. A partir de uma situação comum a todos naquele momento, a morte, cheguei à idéia central de suportar o peso de cada um (uma espécie de colo) filmando esses retratos individualmente. Penso em expor essas imagens projetadas lado a lado como em uma parede do interior de uma casa cheia de retratos de família. Montei quatro desses arquivos em um único vídeo e disponibilizei no youtube para que vcs possam ver as imagens: http://www.youtube.com/watch?v=GoU63U_O09k


O que eu proponho aqui para o 1000 casas é diferente, que a cada casa seja construído apenas um retrato com toda a família e que seja idealizado em parceria. Escrevi sobre isso porque eu entendo essa proposta para as casas como uma continuação desse primeiro experimento familiar.

Uma influência importante para o nascimento dessa idéia foi a exposição Voom Portraits do Bob Wilson que assisti no ano anterior e que me marcou muito. Cheguei a ficar mais de duas horas assistindo a um de seus vídeo- retratos, que voltaram meu olhar para acontecimentos muito pequenos desenhados com o tempo. Dá pra ter uma idéia desse trabalho vendo alguns vídeos no youtube, fazendo um esforço de imaginar um contexto de exposição.

Outro artista que é uma referência para o que me interessa com essas imagens é o Aernout Mik. Eu vejo uma habilidade desse artista em concentrar informação, de trabalhar sobre a síntese, em vídeos que se apresentam mais fortemente como imagem, sentidos mais comopermanência do que como evolução no tempo. Uma pena que não tem muita coisa no youtube, mas dá pra ter uma idéia por enquanto, depois quero subir os vídeos que tenho pra compartilhar também.

A prática caseira ou profissional do “retrato de família” traz também alguma inspiração. Quero entender melhor sobre essa preocupação da família em se registrar, sobre as escolhas estéticas dessas fotografias e no tipo de informação “não programada” que acaba sendo revelada no descuido, acontecendo nas entrelinhas. Encontrei um site que reúne fotografias curiosas de família, vale a pena dar uma conferida também. Verdadeiras pérolas. Digitando o nome do site “awkward Family photos” no google images aparecem as imagens mais interessantes. O site: http://awkwardfamilyphotos.com/

A relação com as pessoas da casa
O que mais tenho pensado sobre o 1000 casas é na oportunidade que esse formato aponta de pensar e praticar alguma relação que ainda não conheço entre artista e público. É de pensar a profissão do artista no mundo e fazer alguma coisa sobre isso.

E qual seria a importância e a necessidade de gerar novos olhares sobre a arte? E quais seriam os pontos críticos das relações que estamos vivendo?
Vários! Mas estive pensando muito sobre um ponto.
Em geral quem não é artista de profissão toma contato com a arte:
1) Através da idéia de artista veiculada pela mídia (celebridade> “figura do artista gênio”, idéia de “talento”).
2) No ensino de arte, a partir de uma perspectiva histórica dos artistas que impulsionaram movimentos artísticos.
3) Na fruição de arte, com a obra finalizada. (em geral sem informações que poderiam contextualizar a obra)
4) No fazer artístico, a partir de uma perspectiva tecnicista. Aprender uma determinada linguagem que será aperfeiçoada no tempo, habilitando progressivamente o exercício da arte.

Quando penso sobre isso tenho um desejo de encontrar uma maneira de partilhar o meu trabalho trabalhando. Fazendo, partilhando meu exercício de ser artista no desfazer, no borrar, na reflexão e a partir de uma autoria compartilhada. Acho que o próprio trabalhar do artista é em geral o menos compartilhado e isso não ajuda a desmistificar a “figura do artista gênio” e a idéia de “talento”.

Tenho vontade de expor claramente a proposta, sem esconder nenhuma informação e gerar condições para que esse trabalho possa ser feito junto com todas as diferenças de entendimento sobre arte e vida que se apresentarem. Gosto da idéia de gerar uma experiência em performance a partir de algo que todos conhecem bem, posar para uma foto.
Pensando sobre a terceira performatividade acho que ela pode ser entre outras coisas também uma maneira de propor essa desmistificação. E essa idéia começa a se desenhar melhor a partir das propostas que temos discutido. Tenho colocado o foco sobre a performatividade na experiência dos moradores também me interessa. Esse é um ponto de conflito ou incerteza no momento pra mim.

Os procedimentos
Pensei em realizar duas visitas:
1) A visita do acordo
Realizar uma primeira visita onde eu faço o convite de criar essa imagem e verifico o interesse da casa na proposta. Tem um desafio nesse ponto com certeza! Porque uma proposta como essa poderia interessar uma família? Esse desafio me interessa.
Prefiro começar pela casa de alguém do Núcleo que seja do Dirceu e que a partir daí uma casa indique outra que possa ter o interesse gerando um primeiro contato a partir da vontade e da confiança. Não é importante pra essa proposta a surpresa ou a visita inesperada.
Nessa primeira visita pedirei duas coisas para a família escolher e trazer para o próximo encontro. A) Como deseja ser fotografada (lugar, posicionamento das pessoas, algum elemento que revele sua identidade, coisas desse tipo). B) Um artista (de qualquer linguagem) admirado por todos ou pela maioria. A iniciativa do Jacob em coletar os artistas mais importantes das pessoas do núcleo me fez pensar no quanto essa informação diz a respeito de nossas escolhas estéticas e entendimento sobre arte.
2) A visita do trabalho (produção da imagem).
Nesse dia quero trazer mais dois elementos pra somar ao nosso trabalho. C) Uma instrução corporal (como por exemplo tirar um pé do chão, girar a cabeça pra algum sentido, ou aproximar o corpo ao máximo da TV…). Gostaria que essa indicação viesse de uma percepção minha sobre a casa e não fosse arbitrário. Existe um problema ai… Ainda não sei de que maneira chegar a isso, mas seria proporcionado pela primeira visita. D) Um dado arbitrário, fictício que será sorteado de uma caixinha com opções (uma imagem que propõem uma situação, como por exemplo a imagem da Santa ceia)
A equação A+ B+ C+ D = IMAGEM será resolvida nessa tarde por todos.
Esse formato é interessante pra mim porque desde que comecei a pensar nisso percebi que não tava afim de expor uma realidade familiar, falar sobre ela simplesmente. Tava mais afim dessa combinação maluca entre a minha necessidade de falar sobre ela, a necessidade dela falar sobre si, as influências estéticas e artísticas de ambos e dados inventados ou arbitrários que ajudam a colocar em cheque a noção de veracidade e realidade de todas as escolhas dessa fotografia, isso me interessa mais.
Ao final gostaria de disponibilizar o arquivo do que produzimos para a casa e talvez organizar ao final uma exposição de todas elas para que cada família possa ver a produção de tantas outras.



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4 Comentários

  1. elielson disse:
    14 de fevereiro de 2011 em 3:43

    vou copiar o que pus no email pra ti Ju.
    e acrescento que tenho boa parte da obra do Aernout Mik comigo, caso você queira ter.

    de Elielson Pacheco
    para juliana frança
    data 14 de fevereiro de 2011 00:37
    assunto Re: novo site> proposta
    enviado por gmail.com

    Ju mulher,

    vi que tu trampou pesado!
    e to me deliciando aqui com a tua proposta.
    ta massa pq ta conectando as coisas que tu ja fez, teus interesses futuros e o projeto Mil Casas, sem forçação.

    o vídeo com as pessoas da tua família é massa.
    e o que tu fala sobre o”quase” que te interessa de uma foto que na verdade é vídeo e que capata os pequenos movimentos das pessoas naquela “posição” é bem interessante e instigante. captar essa “pausa”.
    a câmera angular (q deixa a imagem ovalar) tb acho bem massa, e imagino que seja tb menos intmidadora.

    massa os portraits do Bob tb. é mais ficcionado, é uma ótima matéria pra misturar com as fotos de família do site que tu mandou. é demais o site. adorei a foto em anexo hahaha

    boas as questões que tu coloca sobre as visões de artista que tu tem. e sei que tu vem sempre trazendo essas questões na reunião. mas vejo que ai tem muuuuuito pana pra manga de discussão gostosa e vital.

    é muita coisa pra mim.
    espero podermos ter um tempo pra conversar sobre tua proposta amanhã na reunião.

    por os vídeos no data show e irmos assistindo eles e tal.

    brigado!

    bjo
    eli


    Responder
  2. Juliana disse:
    15 de fevereiro de 2011 em 1:28

    Massa Eli, sempre acompanhando tudo bem de perto!
    To mesmo tentando entender as relações entre as últimas coisas que eu fiz, as questões atuais e o projeto 1000 casas. Ainda tenho bastante dúvida se alguma coisa pode mesmo caber na outra, mas esse é o caminho de saber…

    É exatamente essa mistura entre ficção e realidade que eu to buscando Eli! To bem instigada por essa busca.

    Vamo de pano pra manga pensando sobre nosso trabalho no mundo!!! Quero mais e mais pano sobre isso que anda me inquietando muito por agora.

    E é claro!!!!Vamos cruzar esses arquivos do Aernout Mik. Depois subir tudo isso no youtube, esse material precisa estar disponível.

    Obrigada !!!!!


    Responder
  3. jell disse:
    24 de fevereiro de 2011 em 13:38

    ju, encontrei algo pra dividir com voce e leo, que tambem falou coisas bem interessantes sobre foto/familia/registro/tempo http://irinawerning.com/back-to-the-fut/back-to-the-future/

    bjo


    Responder
  4. Layane Holanda disse:
    24 de fevereiro de 2011 em 14:00

    pô esse post não podia ficar sumido!!
    bug, bug chato!


    Responder

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