Rota, desvio e tropicalismo… De Amsterdam…

Por: às 12/10/2011 03:31:53

A língua inexata que com muito suor acabamos inventando, mistura de português, inglês, italiano, espanhol e quando menos se espera uma palavra em holandes, diz bastante também do que consigo observar sobre o trabalho que estamos fazendo juntos. Vejo dois eixos muito relacionados com essa sopa um pouco estranha de palavras: a ideia de ícone e a ideia de desvio (uma mentalidade de cor tropicalista).

Quando Gabriela Maiorino (Dansmakers-Amsterdam) chegou ao Galpão do Dirceu, trouxe  consigo algumas ideias, entre elas essa ideia de “ícone”. Ícones religiosos, históricos, pop, políticos, códigos, referencias que existem dentro de todo mundo. A característica de um ícone é a rigidez, é a qualidade de se tornar um estereótipo que pode ser identificado, compartilhado e compreendido por muita gente ao mesmo tempo.

Uma parte grande do trabalho no espetáculo está apoiada nessa pesquisa de tornar-se um ícone, de quase tornar-se bidimensional, tamanha rigidez.

Junto com o assunto dos ícones Gabriela trouxe também algumas coreografias que nunca puderam se ajustar muito bem aos nossos corpos e ideias. A partir desses e tantos outros desajustes, que poderiam ser pensados como limitação, aconteceram na realidade desvios, rotas inesperadas.

Consigo relacionar essa capacidade de encontrar novas rotas a partir do outro a tudo o que temos discutido no núcleo sobre vulnerabilidade. Também consigo ver de alguma maneira uma cor, uma mentalidade de inspiração tropicalista de ter fome do outro e de ser muitos possíveis.

Quase todo o resto do espetáculo está enraizado em uma instrução que chamamos “dança cortada” e a base dessa instrução é a capacidade de interromper, cortar, limitar os percursos de movimento para criar desvios, descobrir outras rotas. Vejo nesse trabalho um sentido de flexibilidade e (de forma bastante paradoxal) um sentido de liberdade que surge do exercício de gerar restrição.

A partir desses dois eixos, a idéia de ícone e a idéia de desvio (com cor tropicalista), discussões que me interessam muito têm se colocado no trabalho: gênero, família (papeis sociais), e identidade.

A Sayara se aquecendo no ensaio do Bomber Crew, as músicas do Caetano na varanda, as conversas e as perucas do Mavi que nos traduzia criando, as noites de rede com Marcelo falando sobre o Zé Celso e tantas outras coisas sempre tão imaginativas e gesticuladas, a Valentina que ao final do processo se move pra tentar entender, a Tarantada do Sul da Italia que mais parece um ritual de candomblé ou os muitos ventiladores do galpão…

Tudo de certa forma está ai, engolido, sendo ainda digerido e transformado por todos nós.

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TOUCH IT!
Choreography: Gabriella Maiorino
Dance/live music: Kayo Arruda, Layo Bulhão, Valentina Campora, César Costa and Juliana França
Light design: Mike van de Lagemaat
Music: Simone Giacomini
Decor: Giovanni Cavalcoli
Photo and videomaterial: Mavi Veloso
Editing: Melanja Palitta
Dramaturgical advice: Suzy Blok
Production: Dansmakers Amsterdam in collaboration with NúCleo do DirCeu
Brasil Festival Amsterdam
Melkweg Theaterzaal
20 October 20:30h première
21 - 23 October 20:30h
€ 14,00, € 12,00 discount, € 5,00 students
Reserve: via Melkweg site



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4 Comentários

  1. L.H. disse:
    12 de outubro de 2011 em 17:09

    Massa Ju seu post, tava curiosa daqui por noticias. Muita, muita muita coisa no seu texto…não saquei bem essa coisa do desvio (uma mentalidade de cor tropicalista). Mas é provavel que isso no texto fique mesmo mais enigmático pra gente, do que pra voces no próprio trabalho. Tô intuindo que tá indo por um caminho bom…

    Bacana ver nas fotos, outras cores, outro espaço, outros elementos visuais que estao entrando… bacana ver como tudo tá se construindo agora a nove graus.

    =)


    Responder
  2. mavi disse:
    14 de outubro de 2011 em 2:33

    Pois é, Juju, faço das palavras do L.H., aqui ariba, uma parte pras minhas.
    Pelas imagens e por seu texto – que aliás transmite impressões de maneira que deixa até com água na ponta da língua de comer isso, hein! -, pelos novos ares que dá pra sentir, a partir dessa nova tomada de elementos, espaço outro, arredores outros, pessoas… Acompanhado pelo processo aqui e aí adiciono o que imagino a partir dessas pistas suas neste post, well, to ficando um tanto aguçado disso tudo que tropicalizou por aqui um tanto e ta se adaptalizando um tanto por aí.


    Responder
  3. mavi disse:
    14 de outubro de 2011 em 2:35

    http://temporarytitled.tumblr.com/

    botei o post disponível tb no site que criamos durante o processo por aqui pelo Núcleo.


    Responder
  4. Layane Holanda disse:
    14 de outubro de 2011 em 3:45

    ah…achei lindo os meninos de chapeuzinho de barbie ultragay…e o chao branco com os objetos me lembraram a bagunça do Menu. rs.

    ;P


    Responder

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