Será que a poesia dançou?

Por: às 07/10/2007 05:14:00

Se eu escrevesse um poema utilizando para sua composição uma forma de pensamento mais próxima da linguagem da criação corporal, poderia chamá-lo de poema-dança ou ele continuaria sendo pura literatura?

Desde que li, há alguns anos atrás, o artigo intitulado SEIS PROPOSTAS PARA A POESIA DO PRÓXIMO MILÊNIO, do poeta brasileiro Horácio Costa, baseado no programa estético elaborado pelo escritor italiano Ítalo Calvino, mudei completamente minha percepção acerca da linguagem literária no campo da poesia. No início foi só um “mal estar” que se instaurou em mim, por compreender o que tinha lido em outra esfera da minha racionalidade, ou seja, no meu íntimo eu concordava com aquilo mas não era capaz de verbalizar o que era aquilo com que concordava. Os conceitos de Semiótica, de Arte Conceitual eu só aprenderia anos depois, aqui no NCD, estudando dança. Mas o incrível pra mim é que mesmo nesse nível de compreensão não muito clara comecei a escrever um outro tipo de poesia, o qual eu identificava claramente com essa nova estética. Hoje quando escrevo um poema utilizando um dizer mais explícito, é pra não deixar morrer em mim a espontaneidade criadora (inspiração?) que todo artista deve lutar por conservar, mas os poemas meus que eu gostaria que um dia chegassem ao público são aqueles em que há um caráter maior de construção, em que a linguagem molda o conteúdo do que digo num jogo mais amplo de signos.

E é exatamente aí, nesse lidar com signos de forma mais consciente e trabalhada, que a dança entra como fator multiplicador de possibilidades e questionamentos no meu fazer poético literário. Nos dois últimos anos tenho aprendido coisas incríveis sobre criação de imagens, transformação de imagens, relações entre imagens, caminho entre imagens (este último item, legado do workshop mais recente, o de Luis Ferron), e tudo isso em termos de dança, mas que bisbilhoteiramente não consigo deixar de arrastar para a literatura, meu grande vício (é verdade que nos últimos tempos, em função do trabalho, não tenho tomado muitos porres de leitura). E esse jeito de criar, com a consciência do que se quer dizer e uma expressão mais simbólica do que descritiva, vem se refinando enquanto desejo dentro de mim, através do estudo da dança, mas tem encontrado o canal da poesia escrita para se manifestar, para fluir. Meus poemas estão modificados, meu jeito de escrever poesia está se tornando semelhante à maneira que procuro dançar. Minha poesia está dançando?

Gosto de falar isso. Principalmente porque sugere cruzamento de linguagens. E também pelo efeito destruidor se tomarmos “dançando” como gíria, caso em que o termo expressaria um aniquilamento gradativo desse fazer poético, e que poderia ser visto positivamente como transição para um novo fazer, e não como o fim de todo o fazer.

Acho que é isso. Fica aí a idéia de uma forma de arte alimentando outra, reverberando numa espiral elétrica de corrente alternada, o tempo todo crescendo daqui pra lá e de lá para cá.

E assim encerro mais uma noite passada neste templo de inspiração, em que a idéia era sair pra tomar umas cervejas, mas penso devagar e digito devagar, e já são 4:10 da madruga e eu preciso fazer cocô e durmir no camarim.

Té mais.

: eduardo prazeres :



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3 Comentários

  1. eliel disse:
    7 de outubro de 2007 em 16:04

    é interessante eduardo a idéia de compreender que outras áreas de conhecimento ampliem as possibilidades de percepção de sua poesia. também fico pensando que outras práticas ou pelo menos outras maneiras de olhar podem também alterar o conteúdo da dança que danço. você tá metido aqui pelo blog né? beijo.


    Responder
  2. elielson disse:
    7 de outubro de 2007 em 16:05

    eliel = elielson. dei um enter sem querer.


    Responder
  3. eduardo disse:
    8 de outubro de 2007 em 11:18

    fico feliz eli, de ver vc como dançarino declarar q tbm pensa em coisas q podem alterar sua dança sem necessariamente serem próprias da dança. acho q se permitir esse tipo de coisa enriquece o nosso fazer. é isso aí. bjo


    Responder

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Comentários

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  • Kayoo': Muito Bom Muito Lindo e Muito “Estigador “
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