Todo o papo das reuniões do núcleo vem pouco a pouco se concretizando em ações, aqui no blog, na relação com os funcionários, nas mostras e discussões sobre as criações em andamento, no corpo a corpo do cinemo, na participação no instantâneo etc etc e tal.
Na última sexta na Escola Técnica de Teatro Gomes Campos inaugurei um espaço de discussão e bate-papo “extra currículo” mediado por mim e pelo Prof. Aci Campelo diretor da Escola. Com o nome provisório de “Sexta-Shift”, a idéia é esclarecer, instigar, politizar, desestabilizar e claro TROCAR, construir aos poucos um canal direto entre o que acontece aqui e lá. É portanto uma parceria do ncd que começa “pequenininha” numa brecha que surgiu dentro da carga horária rígida da escola.
Pensei numa série de assuntos que poderiam somar a entendimentos/visões de teatro que considero extremamente codificadas ou que precisam de alguma forma ser ampliadas e que fazem parte do currículo obrigatório e dos planos de curso. Mas isso teria um cárater prepotente e de certa forma colonizador. Afinal é preciso reconhecer que existem ali necessidades e assuntos que interessam a ELES discutir, e que é preciso entrar, abrir uma janela por ali…
Numa lista dos turnos tarde e noite a maioria das perguntas se referiam a leis, politícas públicas, projetos, financiamento… que na verdade refletem a latente preocupação de “sim estou numa escola de teatro, mas e depois?”.
O papo sobre o que é mesmo mercado cultural foi acompanhado de pipoca, cuscuz, café e refrigerante perto da cantina no pátio da escola. E me lembrava a infância na escola pública. Mesmo optando por noções,(o que é dedução fiscal, o que inciativa privada, etc) Prof. Aci diz que a “quantidade de informação” para um primeiro dia foi grande.
Penso que aquele fim de tarde com 15 pessoas entre alunos, a tia da cantina e o vigia pode mudar muita coisa a começar pela idéia do que é formação em arte naquela escola ou ainda a noção romântica de teatro de grupo. Descobrir que vivemos numa cidade que precisa construir um mercado cultural para artistas (com ou sem grupo) foi pra muitos alunos uma descoberta assombrosa. Me senti empolgada com a constatação de que é POSSÍVEL SIM de maneira muito simples, com os recursos mínimos que se tem, com um pequeno número de pessoas … SE COLOCAR EM MOVIMENTO…EM AÇÃO..e que o alcance disso pode ser enorme, gigantesco. Me lembrava muito do que Helena falou num bate-papo no teatro: a informação não “passa” pelo corpo, ela o modifica. Pra mim artisticamente tem sido um exercicio re-elaborar um discurso de mão dupla que consegue “abrir” em mim e no outro um dispositivo…como me tornar cabo USB.
A idéia é que outros professores e integrantes do núcleo possam participar dessas sextas. Foi bem bom!
L.H.
28 de outubro de 2008 em 1:32
muito bem layane. muito boa essas conversas sedimentarem em ações fora do teatro. que acho que so fortalecem o que construimos aqui e fortalece a idéia de autonomia. um bjo e força!!!
28 de outubro de 2008 em 3:31
layane, acho muito interessante – corajoso e generoso da tua parte – essa tua iniciativa.
Mas e’ preciso deixar bem claro a via dupla, ou seja, nao fazer isso como beneficiencia, mas uma tentativa de expandir essa coisa do dialogo, do mercado, das preocupacoes por uma cidade melhor para os artistas.
E’ preciso deixar claro para o diretor – que esta abarrotado de coisas novas – que precisamos da contrapartida, pra nao cair nessa coisa teresina de eu dou, dou, dou e nao recebo nada.
E’ preciso deixar claro que existe um compromisso e um investimento nessa acao, e cobrar o retorno.
Se parece assim com relacao de amor, vc da tudo de si da tua maneira, mas tbem precisa receber, senao vira maternidade ou desespero da tua parte entende?
E’ preciso estabelecer a moeda da troca e cobrar juros e correcao, senao vira….sei la…entendeu ne?
Mas parabens ai, da o maior orgulho disso.
28 de outubro de 2008 em 11:00
acho muito importante, marcelo, tudo que vc falou. acrescenta muito!! tomo isso para o trabalho que desenvolvi no bale da cidade…
mas tb acho que essas ações e suas respostas demandam tempo.
1- ao meu ver ações como essa da lay são a longo prazo. esse tipo de consciência, de perceber o quanto troca é importante, o quanto constroi, não brota de uma hora pra outra.
2- é preciso ter cuidado pra não virar: olha como eu sei o que é contemporaneo e vc não sabe. precisa correr atras. pra isso percebo que tem dois tipos de resposta: ou vira neo colonialismo, no sentido de que as pessoas não entedem, não assimilam realmente aquele processo. apenas dizem sim, sim, sim. ou acontece o contrario: olha esse povo ta se achando. vou continuar fazendo o que sei, porque isso tudo é besteira, é invenção e eu não caio nessa.
é preciso ter muita sensibilidade, estar disposto a aprender tb (não so achar que esta transmitindo uma coisa que vc sabe muito), a ouvir realmente e tentar entender quais são as questões especificas daquele ambiente.
muito bonitos suas fotos da cidade do mexico. da vontade de estar la tb. um beijo forte.
28 de outubro de 2008 em 12:13
Pois é gente, essa coisa da troca da contrapartida, da via de mão dupla que o marcelo fala é algo que realmente se constrói… e acho que demanda tempo mesmo. Não dá pra ser assim de cara!
Por exemplo quando falei em parceria entre escola e NCD uma das coisas que o Aci de imediato falou foi sobre a diferença entre esses dois lugares. E que até poderia acontecer essa troca, mas dentro da maneira de funcionar da escola, que está submetida a um sistema formal e vigilante que opera lá dentro (secretaria-estado-curso técnico-coordenadora pedagógica-bla bla).
Podem claro acontecer eventos, aulas práticas, atividades extra sala, mas não toda semana. Nao se pode usar todo o horário de “aula” pra “palestra”, porque isso no entedimento da secretaria de educação tem que estar em consonância com o plano de curso daquela disciplina especifica…e é registrada como carga horária de aula.
Então vê só, ao apresentar, veja bem , só APRESENTAR uma idéia de parceria entre a escola e o ncd já tem que rolar um ajuste. É dificil mesmo! E fica uma sensação de que nós propomos uma ação, nós pensamos, nós vamos lá e fazemos…
Essa coisa que o Eli fala de neo colonialismo é realmente um risco. Mas estou atenta! Tem funcionado como paquera, tô construindo essa construindo pra rolar a tal troca de mão dupla.
E aí nessa “chegada” até a abordagem via cartaz tem que ser um meio termo… algo no qual as pessoas se reconhecem sabe. A latinha de refrigerante na cantina… senão fica impositivo, senão empurro goela abaixo…
Pra mim aquela sexta foi realmente um aprendizado, o resultado dessa abertura, por exemplo, já chegou em mim numa conversa do aci super franca sobre conselho de cultura, sobre a importância de um posicionamento politíco que acompanhe o meu fazer artístico…
Já foi um pouco mao-dupla pra mim, isso só tem que se ampliar…
28 de outubro de 2008 em 13:48
essa discussão é realmente muito interesante.
Trocar, nos realcionar, dar e receber,com a escola de teatro, com o balé da cidade e com todos os grupos que a gente puder alcançar.
eu acredito que todas essas preocupações que são colocadas já vem de um tempo, mas precisamos usá-la pra entender melhor como podemos fazer essa troca.
ontem o Wagner comentou uma coisa bem interessante: que se agente ta mais consciente das necessidade de estarmos juntos (como artistas) em benefício da cidade, e talvez os outros grupos não, então a gente precisa tomar a iniciativa.
neste sentido os meninos, Lay e Eielson estão mandando bem.
ainda precisamos ter um pouco de paciência.