
Um trechinho do texto do Gustavo Bitencourt (+) retirado do idanca.Foto: Lauro Borges.
Gatos Pingados
Então, aqui em Curitiba a gente tem sofrido com a falta de público. Sofrido não define exatamente o sentimento. É mais uma curiosidade em torno de um fato consumado. A gente vai lá, cria, pensa, lê, discute, testa, ensaia tudo bem bonitinho. Aí, na hora de apresentar, aparecem lá uns cinco gatos pingados, dos quais três são parentes em primeiro grau e os outros dois saem reclamando, falando que não entenderam nada. E não adianta a gente divulgar bem pra caralho, mandar pra tudo que é revista, jornal, TV, ligar pras pessoas, chamar, insistir. Não adianta vender ingressos a preços módicos, oferecer amendoim, biscoito, chá, cerveja. Eles não vão mesmo. (…)
Se eu fosse o terapeuta do casal ia conduzir a sessão assim:
Eu: Então tá, que que vocês têm pra reclamar um do outro?
Artista: Ele não me dá atenção.
Público: Ele não me dá atenção.
Eu: Sejam mais específicos.
Público: Ele só se importa com os problemas dele. Me trata como se eu fosse idiota e só ele soubesse das coisas. Ou ele força a barra pra eu prestar atenção, me obriga a participar das babaquices que ele faz, ou me ignora completamente. Ele age como se fosse um deus, um sacerdote, sei lá. Não se esforça. Fica lá no lugarzinho dele e acha que eu tenho que aplaudir qualquer coisa que ele faça. É megalomaníaco, arrogante, chato e preguiçoso.
Artista: Ele não quer nem tentar entender do que eu estou falando. Queria que eu fosse outra pessoa, que eu fosse o Gianecchini, a Ana Botafogo, o Leonardo da Vinci. Ele menospreza o meu trabalho, acha que não tem esforço, que não tem nada. Tudo que eu faço ele acha que é presunçoso ou é bobagem. Me julga de acordo com uns parâmetros que saíram, sei lá, da publicidade, da cabeça da mãe dele, e não tem a menor intenção de olhar com cuidado pro que eu faço. Ele quer que eu faça o que ele gosta, quer sair sempre feliz, quer entretenimento. Ele é burro, mal informado, insensível e desinteressado.
Eu: Tá, mas vocês ainda se amam?
…
E pensar que isso acontece justamente na arte contemporânea, em que aparece mais forte esse discurso de libertar, quebrar fronteiras, de levar arte pro cotidiano, cotidiano pra arte, questionar, mudar o mundo com arte. Mas que mundo que vai mudar, se o mundo em questão insiste em falar que não entendeu nada?
(…) continua aqui
L.H.