Viveiros de Castro esclarece que “após ter matado o inimigo, o executor mudava de nome e era marcado por escarificações em seu corpo durante um prolongado e rigoroso resguardo”. (…) Com o decorrer do tempo, os nomes se acumulavam no corpo do matador, acompanhados de desenhos entalhados na carne . Isso significa que a existência do “outro” passava a fazer parte do assassino. Me parece, que numa perspectiva cronológica e histórica podemos até estar longe (?) da natureza selvagem dos Tupinambás, mas de fato ainda praticamos uma espécie de canibalismo metafórico (mas agora predatório) do outro. Apropriamos-nos do outro como dispositivo que “resolve” nossas deficiências, que supre nossos desejos inconscientes, que nos confere status e um certo sentido, que nos confirma ou valida a própria existência. Nós devoramos o outro. (Mas isso nem são coisas que afirmo, são mais questões.)
Segundo Greiner é assim:
Para compreender melhor essa inevitabilidade de traduzir/devorar o outro no próprio corpo, apresento três ações aparentadas: representar, incorporar e coevoluir.
1-REPRESENTAR: a representação implica sempre estar de algum modo e em certa medida para algo ou alguém. Depende, portanto da natureza daquilo a que se refere. (…) A representação também pode ser a relação entre o significado mental e o objeto referencial, ou, em outras palavras, a idéia que representa a coisa (…) Na história da ciência não existe nenhuma unanimidade acerca da definição do que seja uma representação (…) de todo modo, em suas diferentes instâncias, a representação, pode ser considerada como um estado primário da comunicação.
2- INCORPORAR : Há muitas maneiras de escrever como um conteúdo é incorporado – e aqui eu entendo que um outro é também um conteúdo. Ao afirmar que toda performance corporal carrega e reinventa o tempo e os processos comunicacionais, Joseph Roach (1996) é um dos autores que observa os modos com a representação pode (e muitas vezes é) um modelo ou MODO DE SER DA COISA que ela representa – entende? Incorporamos aquilo que representamos.
Isso quer dizer que a maneira como representamos o mundo é o modo como a informação externa tem possibilidade de ser internalizada nas determinadas circunstâncias em que a ação se desenvolve. A cognição é sempre “situada”. (…) Isto significa que a cognição não é a representação de um mundo independente, mas um tipo de relação corporificada do mundo e da mente. (…) Bem, vejamos então (…) fica claro que a cognição depende da experiência corporal. As nossas capacidades, sejam elas quais forem, são materializadas e constituídas pelos contextos biológico, psicológico e sócio-cultural de modo inseparável. Tanto as ações visíveis com as invisíveis dizem respeito aos processos perceptivos e sensório-motores. (…) Então todas essa configurações emergem do trânsito entre corpo e ambiente, e ambiente aqui, também inclui o outro (o outro individuo que não eu).
3- COEVOLUÇÃO : Esta expressão deriva do termo darwiniano coadaptação ou co-opção (…) alguns autores explicam a relação coevolutiva entre borboletas e plantas hospedeiras de suas crisálidas, observando como uma modifica a outra – MAS CALMA, é preciso não fazer confusões. Vejamos: Os padrões culturais de comportamento tem valor de sobrevivência, mas não são transmitidos geneticamente, nem estão sujeitos a processos de seleção natural (tal qual a seleção opera no âmbito da genética –item 3.1)
3.1.- O que é transmitido geneticamente afinal? > capacidades (características) de criar padrões de comportamento com os seus semelhantes e de inventar novos padrões de acordo com ações estabelecidas em contato ( e em conjunto) com o meio ambiente. A evolução genética da linhagem humana acrescentou o caminho análogo da evolução cultural e essas duas formas de evolução passaram a ser interligadas(…)
Voltando ao raciocínio inicial do item 3 onde dissemos que padrões culturais não são transmitidos geneticamente, então: Seguindo, o que acontece é que ... certas normas culturais, sobrevivem e se reproduzem melhor (…) fazendo a cultura evoluir e uma trilha paralela à evolução genética, mas muito mais rápida. Quanto mais ágil o ritmo da evolução cultural, mais frágil a conexão entre genes e cultura, embora ela nunca se rompa. A cultura permite um rápido ajuste à mudanças no ambiente através de adaptações finamente sintonizadas, inventadas e transmitidas sem uma prescrição precisa correspondente. E agora vem a parte importante de se prestar atenção, porque: … algumas dessas estratégias adaptativas radicalizam de tal maneira a relação corpo-ambiente que instauram diferentes tipos de patologias do limite (…) Ao devorarmos o outro, camuflamos, metamorfoseamos ou desarticulamos, colocamos em xeque a própria noção de si mesmo.
Este post na verdade é um email. É também uma reverberação da leitura diária de O Corpo em Crise, porque minha vida e meu trabalho estão cada vez mais numa zona de indistinção (ainda bem, eu acho!). Os ensaios do Matadouro prosseguem. Depois de amanhã dou uma entrevista sobre este espaço virtual, que cada vez mais sinto necessidade de ocupar – seja de que forma for - e isto é apenas uma constatação tranquila que compartilho, desprovida de qualquer “ranço” , cobrança ou comparação.
12 de outubro de 2010 em 16:55
oi lay. o que é uma zona de indistinção? bj
ah,hahaha adorei a cara do fabio na segunda foto
12 de outubro de 2010 em 17:12
eli beem resumidamente: algo que nao é nem fora nem dentro, nem publico nem privado; que nao se distingue, entende? esse é o sentido que dou aí… bjo. estou onlineeeeeeeee.
13 de outubro de 2010 em 17:00
gente,
temos que conseguir ler todos “o corpo em crise” da greiner.
alem de ser uma delicia, e’ fundamental para compreender essas e outras zonas importantes.
bj
13 de outubro de 2010 em 23:20
siiim.
vou tentar pegar com lay.
quero saber que corpo em crise é esse que ela fala….
sobre a zona de indistinção entendi lay, agora falta saber o contexto real em que isso rola e como se da as implicações disso, como é que um trabalho passa a ser uma zona de indistinção….