Esse post é pra falar de algumas referências e caminhos por onde tenho estado, especialmente nessa segunda fase da primeira etapa do 1000 casas, em que me propus a visitar casas de terrenos de invasão. Antes de pensar em uma ação concreta, pensei nessa abordagem e na idéia de trabalhar com esses moradores em cima das projeções deles (planos, desejos) de ocupação desse espaço; suas casas, seus terrenos, os limites em negociação com outros invasores.
Há um tempo venho pensando muito em espaço próximo de uma perspectiva arquitetônica. Na escala da cidade; periferias, centros, fluxos de deslocamento, uso e ocupação dos terrenos, expansão, planejamento, espaço público X espaço privado, especulação, e espaços de sobra – zonas límbicas que não serviram a nenhum propósito na rede de conexões urbana.
Estes são espaços residuais, normalmente nem são notados pela maioria dos cidadãos nos seus deslocamentos, terrenos que foram deixados de lado no curso da progressiva expansão das cidades por serem economicamente inviáveis, seja pelo tipo de terreno (sujeitos a inundação, deslizamentos…), por questões de propriedade, restos de terreno de obras infra-estruturais como vias elevadas, áreas tangentes às rotas. Na pesquisa que eu e Ju começamos ano passado no coLABoratório chamamos isso de Buracos Urbanos, por sua invisibilidade, disfunção, seu caráter frequentemente sombrio, não vigiado.
Na busca por uma ótica econômica e geopolítica para esses regimes de ocupação de espaço nos grandes centros urbanos, vim parar no livro do arquiteto americano Mike Davis, Planeta Favela, que é uma análise aguda das circunstâncias da favelização generalizada das grandes cidades do mundo periférico. Um diagnóstico cruel do fracasso do projeto moderno em viabilizar suas maravilhas para as maiorias. No segundo capítulo ele fala sobre urbanização irregular: “(…) Embora seja comum dar aos loteamentos clandestinos o rótulo errado de comunidades de invasores, há diferenças fundamentais. Invadir, claro, é se apossar da terra sem compra nem título de propriedade. A terra periférica “sem custo” tem sido muito discutida como o segredo mágico do urbanismo do Terceiro Mundo: um imenso subsídio não planejado aos paupérrimos. No entanto, é raro a invasão não ter algum custo prévio. O mais comum é que os invasores sejam coagidos a pagar propinas consideráveis a políticos, bandidos ou policiais para ter acesso aos terrenos, e podem continuar pagando esses “aluguéis” informais em dinheiro e/ou votos durante anos. (…) É comum a ocupação tornar-se um desafio prolongado à força de vontade e à resistência contra a máquina repressora do Estado. ‘Não é difícil ouvir falar (…) de um assentamento de invasores construído durante a noite, demolido pela polícia no dia seguinte, reconstruído na noite seguinte, destruído outra vez e reconstruído até que as autoridades se cansem de brigar’. (…) No entanto, muitas comunidades de invasores são consequências do que o sociólogo Asef Bayat, ao escrever sobre Teerã e Cairo, chamou de ‘apropriação silenciosa de rotina’: a infiltração em pequena escala e sem confrontos em terrenos marginais ou intersticiais. (…) Mas a terra periférica plana, mesmo no deserto, tem valor de mercado, e hoje a maioria dos assentamentos de baixa renda na orla urbana, embora muitas vezes caracterizados como invasões, na verdade funcionam por meio de um mercado imobiliário invisível. (…) A urbanização irregular é, com efeito, a privatização das invasões.”
No texto Espaço-Lixo o arquiteto holandês Rem Koolhaas se refere na verdade a outra idéia de espaço, que embora diametralmente oposta àquela que eu coloquei no início do texto, é igualmente um dejeto do mesmo processo da pós-modernidade: “(…) Se o lixo espacial são os resíduos humanos que conspurcam o universo, o espaço-lixo é o resíduo que a humanidade deixa sobre o planeta. O produto construído (…) da modernização não é a arquitetura moderna, mas antes o espaço-lixo. O espaço-lixo é o que resta depois da modernização seguir o seu curso, ou mais concretamente o que se coagula enquanto a modernização está em marcha, o seu resíduo”; “(…) Embora cada uma das suas partes seja o resultado de inventos brilhantes, lucidamente planeados pela inteligência e potenciados por computação infinita, a sua soma augura o fim do iluminismo, a sua ressurreição como uma farsa, um purgatório desvalorizado… O espaço-lixo é a soma total do nosso êxito atual”; “(…) Foi um equívoco inventar a arquitetura moderna para o século XX. A arquitetura desapareceu no século XX; temos estado a ler uma nota de pé de página com um microscópio, na esperança que se transforme num romance; a nossa preocupação com as massas impediu-nos de ver a Arquitetura do Povo. O espaço-lixo parece uma aberração, mas é a essência, o principal…”; “(…) O espaço-lixo é uma teia de aranha sem aranha; embora seja arquitetura de massas, cada trajetória é estritamente única. A sua Anarquia é uma das últimas maneiras tangíveis que temos de experimentar a liberdade”; “(…) O espaço-lixo é pós-existencial; faz-nos não ter a certeza do lugar onde estamos, oculta para onde vamos e anula o lugar onde estávamos. Quem pensamos que somos? Quem queremos ser?”
A obra do artista americano Gordon Matta-Clark eu conheci pouco antes de vir ao Piauí. Arquiteto de formação, “um dos artistas mais atuantes” no SoHo novaiorquino dos anos setenta, Matta-Clark desenvolveu um discurso estético-conceitual afiadíssimo. Dois trabalhos dele me saltam da memória: Splitting, de 1974, em que uma casa é fatiada ao meio com um uso cirúrgico de moto-serras, técnica usada por ele em vários trabalhos; Realty Positions: Fake Estates [localizações imobiliárias: bens fictícios], fotografias e documentação da compra de lotes em leilões públicos de mannhattan, que eram na verdade as sobras de terreno do traçado dos limites de propriedade na cidade. Pedaços como um metro quadrado no meio de um quarteirão, cercado de prédios enormes de todos os lados – inacessível, ou uns corredores estreitos, por onde não se pode nem passar. Matta-Clark escreveu em seus Art Cards: “a Anarquitetura não tenta resolver problema algum mas regozijar-se numa celebração informada e bem-intencionada das condições que melhor localizem e descrevam um lugar”; “métodos de ocupação (termo para transformar o espaço de acordo com as próprias necessidades)_por superposição_por envolvimento_por consumo_por digestão”; em uma carta ao grupo Anarquitetura escreveu: “o espaço necessário para abrigar inimigos_o espaço necessário para abrigar amantes_ o espaço necessário para desviar-se de uma bala_ o espaço necessário para retirar uma bala_ o espaço necessário para tirar seu chapéu_ o espaço necessário para remover sua casa_ o espaço necessário para remover sua casa”.
Por fim há o documentário Atrás da Porta, um longa do ano passado com uma produção bem modesta mas muita disposição. A sinopse: “A experiência de arrombar prédios e criar novos espaços de moradia das famílias sem-teto do Rio de Janeiro em um documentário que mostra uma série de despejos forçados pelo Estado”. Um dos dois integrantes da equipe é morador de prédios invadidos. Não é lá o que se poderia chamar de um bom filme, mas vale demais as imagens fortíssimas dos despejos e a intimidade dos depoimentos, que talvez só tenha sido possível sendo os videastas quem são.
http://www.youtube.com/watch?v=NDQuRhsr8HI&feature=related