Janaína Lobo – Núcleo do Dirceu – Teresina – PI
Como viver numa cidade que é quadrada, geográfica e metaforicamente?
Que é quente, azul celeste e marrom.
É sempre viver e estar na contramão, nadando contra a correnteza, criando um outro fluxo, gerando surpresas no meio do caminho.
Tudo aqui é arranjado, é quase, é copiado, é torto. E não deixa de ser bonito.
Isso afeta o modo como eu vejo o mundo. O corpo tem o sotaque do lugar de onde ele é.
Ficha técnica:
Concepção, pesquisa, coreografia e interpretação: Janaína Lobo
Música: Sérgio Donato
Fotos: Valério Araújo
Consultoria em figurino: Layane Holanda
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(ou Sotaque e Sundown – como disse o Léo)
ou dia bonito é dia de chuva…
Entrar num processo de criaçao de um solo sempre é assustador. você sozinha na sala, folha em branco, mil ideias borbulhando na cabeça, ninguém pra discordar de você e, especificamente nesse caso, pouco tempo.
Mas vindo de um processo criativo em colaboraçao com outras 3 pessoas, esse encontro meu, com eu e mais nada foi e está sendo extremamente libertador e cada vez mais claro como o pensamento, o caminho que me interessa enquanto criadora. Um caminho mais corporal, mais abstrato, onde todas as referencias e vivencias de movimento coexistem no meu corpo e se juntam para ser uma outra dança, tipo vitamina de abacaxi com açaí. onde as questoes nao exatamente precisam de resposta, de uma conclusao, de uma opininao. Elas existem e estao aí.
Metáforas espacias foi o ponto de partida dessa criaçao e de todas as outras que irão se apresentar na Mostra do Núcleo Alaya Dança, que começou ontem – domingo – já está na 5a que edicao e a segunda em que eu participo como convidada. fora eu, tem gente de Uberlândia, Belo Horizonte e de Brasília. O nome da Mostra também é Metaforas Espaciais.
Esse ponto de partida é amplo e abstrato, mas penso em como ser metafora no corpo, e nao representá-la. meu corpo como cidade, lugar onde vivo, lugar de fora e lugar de dentro, espaços internos que se modificam com o viver, reencontrar espaços e criar outros novos. Foi um processo todo a partir de sensaçoes físicas e inscritas no corpo. as sensaçoes que me identificam com esse lugar. E a primeira sensação que me veio foi a do calor.
Cada cidade te da uma sensacao diferente de distância, de beleza, de temperatura, de relaçao com o espaço.
A primeira imagem que me veio foi o mapa antigo de Teresina e suas ruas como um tabuleiro de xadrez. Teresina foi planejada, assim como Brasilia, e seu primeiro traçado foram as ruas do centro em forma de tabuleiro. cidade quadrada, pensamentos quadrados, viver conforme a linha, se sair do traçado a cidade te engole. E onde ao mesmo tempo tudo é torto, troncho, derrete no sol e deforma, quer ser e ainda nao é, da um jeito de parecer ser. Mas se bem que ultimamente Teresina ta toda “pra frente” com seus restaurantes chiques e imóveis super inflacionados. É importante estar com os olhos sempre atentos nessas mudanças tao rápidas, nem sempre tao sutis, senao o lugar muda e a gente ainda acha que vive num lugar que nao existe mais.
Os intérpretes de Brasilia tinham, além do ponto de partida, uma escultura para trabalhar. Essa escultura como elemento espacial concreto, organica e branca como a cidade-patrimonio que eles vivem. Um cenario, outro interprete, ou sei la o que eles inventaram. A escultura me lembra relevo, topografia, um grande papel amassado, esconderijo que eu fazia quando era pequena. Mas nao vou usá-la. Quero me voltar mais pro corpo do que pra elementos de fora. Prometi que ia fzer um trabalho onde precise somente de mim pra ele acontecer.
Ainda trabalhando.