…sugestionar a compreensão da sua própria existência no mundo.

Por: às 12/10/2010 14:49:49

Sempre soubemos que o mundo, junto com as pessoas, está envelhecendo. Mas a preocupação atual diz respeito ao aumento dessa massa, dessa população que está vivendo mais tempo.  Sabemos ainda, que o mundo tem se tornado cada vez mais prático. O tempo adotado para as coisas e pessoas é o modo rápido e eficiente , isso é o que interessa, tudo é feito e pensado  para um corpo jovem, para um  corpo atuante.

Portanto, eu como artista, criatura deste mundo, sou agradecida pelo fim da visão de uma dança e de um teatro destinado  a um corpo eficiente e belo,ou hermeticamente formatado. Vejo na arte, um meio de transformação a partir do que já existe, vejo na arte, e pelo  movimento  a possibilidade de uma reflexão instantânea do que você é e de como quer se posicionar no mundo. Pensando em  corpo velho, isso significa, uma melhor reutilização das potencialidades dessas pessoas  –   embasado-se  pelo propósito da arte como comunicação que se estabelece por relações de pessoas-pessoas-coisas-ambiente – a partir de uma idéia de disforme despertar a potencia criativa que existe em cada um independente de qualquer fase da vida, estimulando uma forma de expressão autônoma, coerente consigo mesmo diante das limitações e desejos.

No dia 05 de Outubro de 2010, dei inicio a Oficina de Alfabetização do Corpo, através do Ponto de Cultura Núcleo do Dirceu. Os encontros acontecem todas as terças  e quintas no Galpão.  Essa ação é um braço,  que pensa  dança e teatro para terceira idade.  Eu penso especificamente nessa massa de gente antes produtiva, que se aposenta, e é descartada pela sociedade, num corpo diretamente associado a descartabilidade, inutilidade,  a memória, sabedoria, todos aqueles adjetivos passivos que nos levam para longe de um lugar de ação.  Problemas como depressão, solidão, limitações físicas se intensificam na velhice pela falta de estímulos e oportunidade, mas também por uma significado que vamos atribuindo a um corpo que está agora num outro lugar, numa outra etapa.

Fiquei pensando em casa como seria o primeiro dia  já que a divulgação tem sido pouca, se ia ter aluno, essa coisa toda. Nada! Aí não apareceu ninguém. Então chamei o Cezinha, fomos pra calçada e começamos a falar com as pessoas que passavam na rua, ataiando mesmo, marcação corpo a corpo, e foi maravilhoso! Conversar, saber do interesse das pessoas, de como elas se sentem bem em saber do que tem perto da casa delas. E quando percebemos ,os rapazes que trabalhavam no supermercado na frente do galpão estavam fazendo divulgação também, chamando, informando, falando como seriam as aulas depois do Cezinha, explicando a diferença, a similaridade, da dança que que estamos propondo e do forró.

Se me perguntarem se tenho uma grande questão para trabalhar com essas pessoas? Responderia que não! Tenho apenas um ponto de partida, que é me juntar a essas pessoas e trabalhar, botar pra conviver, objetivando a troca de experiencia, numa especie de laboratório  de realidades, de vivencia, de frescor de uma vida cotidiana sem espontaneidade, sincronização com o outro; alfabetizar o olhar, do ouvir, de integração…sugestionar a compreensão da sua própria existência no mundo.



Compartilhe:





Você também pode gostar de:


Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*


+ 5 = 11

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Quem Somos:

Uma plataforma entre 17 e 20 artistas de produção e pesquisa em artes perfomáticas que opera dentro de um sistema colaborativo, atuando em diferentes linguagens. Temos o bairro Dirceu Arcoverde, maior periferia de Teresina, Piauí, como campo de interesse e lugar de referência urbana. O projeto tem se voltado principalmente para a criação de mercado e platéia para a arte contemporânea, formação de novos criadores e pesquisa de linguagem.

Categorias

Comentários

  • L.H.: A peteca caiu mesmo. Também sinto parecido Eli. E acho muito preciso algumas de suas colocações. Mas quero...
  • Elielson Pacheco: Me sinto meio idiota no momento. E fico pensando qual é o ponto do desmoronamento que tem que ir...
  • César Costa: Marcelo, concordo contigo quando diz que só o fato de ser artista já não te coloca como medíocre. Se...
  • Danielle: Não dá pra não fazer conexões entre as coisas ditas, ouvidas, feitas, vistas e acontecidas. Acho que não...
  • weyla: Hoje conversando com minha avó ela me disse que não queria mais comprar roupas porque tava perto de...

arquivo