Sempre soubemos que o mundo, junto com as pessoas, está envelhecendo. Mas a preocupação atual diz respeito ao aumento dessa massa, dessa população que está vivendo mais tempo. Sabemos ainda, que o mundo tem se tornado cada vez mais prático. O tempo adotado para as coisas e pessoas é o modo rápido e eficiente , isso é o que interessa, tudo é feito e pensado para um corpo jovem, para um corpo atuante.
Portanto, eu como artista, criatura deste mundo, sou agradecida pelo fim da visão de uma dança e de um teatro destinado a um corpo eficiente e belo,ou hermeticamente formatado. Vejo na arte, um meio de transformação a partir do que já existe, vejo na arte, e pelo movimento a possibilidade de uma reflexão instantânea do que você é e de como quer se posicionar no mundo. Pensando em corpo velho, isso significa, uma melhor reutilização das potencialidades dessas pessoas – embasado-se pelo propósito da arte como comunicação que se estabelece por relações de pessoas-pessoas-coisas-ambiente – a partir de uma idéia de disforme despertar a potencia criativa que existe em cada um independente de qualquer fase da vida, estimulando uma forma de expressão autônoma, coerente consigo mesmo diante das limitações e desejos.
No dia 05 de Outubro de 2010, dei inicio a Oficina de Alfabetização do Corpo, através do Ponto de Cultura Núcleo do Dirceu. Os encontros acontecem todas as terças e quintas no Galpão. Essa ação é um braço, que pensa dança e teatro para terceira idade. Eu penso especificamente nessa massa de gente antes produtiva, que se aposenta, e é descartada pela sociedade, num corpo diretamente associado a descartabilidade, inutilidade, a memória, sabedoria, todos aqueles adjetivos passivos que nos levam para longe de um lugar de ação. Problemas como depressão, solidão, limitações físicas se intensificam na velhice pela falta de estímulos e oportunidade, mas também por uma significado que vamos atribuindo a um corpo que está agora num outro lugar, numa outra etapa.
Fiquei pensando em casa como seria o primeiro dia já que a divulgação tem sido pouca, se ia ter aluno, essa coisa toda. Nada! Aí não apareceu ninguém. Então chamei o Cezinha, fomos pra calçada e começamos a falar com as pessoas que passavam na rua, ataiando mesmo, marcação corpo a corpo, e foi maravilhoso! Conversar, saber do interesse das pessoas, de como elas se sentem bem em saber do que tem perto da casa delas. E quando percebemos ,os rapazes que trabalhavam no supermercado na frente do galpão estavam fazendo divulgação também, chamando, informando, falando como seriam as aulas depois do Cezinha, explicando a diferença, a similaridade, da dança que que estamos propondo e do forró.
Se me perguntarem se tenho uma grande questão para trabalhar com essas pessoas? Responderia que não! Tenho apenas um ponto de partida, que é me juntar a essas pessoas e trabalhar, botar pra conviver, objetivando a troca de experiencia, numa especie de laboratório de realidades, de vivencia, de frescor de uma vida cotidiana sem espontaneidade, sincronização com o outro; alfabetizar o olhar, do ouvir, de integração…sugestionar a compreensão da sua própria existência no mundo.