O projeto trajeto do sesc belenzinho de sao paulo, traz a cada dois meses um criador apresentando um recorte de sua producao em danca, atraves da apresentacao de duas obras escolhidas pelo criador. fui convidado para ser o criador do mes de junho – o terceiro da serie que comecou com vera sala e seguiu com o duo key e zetta – e alem de me ter dado a liberdade de escolher as obras a serem apresentadas, o iniciador do projeto, juliano azevedo, me pediu alguns nomes de teoricos que conhecessem os trabalhos propostos e o meu trajeto como criador. o teorico escolhido por ele dentre os nomes sugeridos, e’ convidado a escrever um texto a ser incluido no programa do evento. nayse lopez, jornalista, critica de danca, diretora do festival panorama e do idanca, escreveu sobre matadouro e ai, ai, ai, de forma simples, direta e precisa. e ouvi hoje do jacob depois de ter lido o texto no programa, a seguinte frase: “foi a primeira vez que eu li um texto sobre danca que eu entendi todas as palavras”. abaixo o texto da nayse, thanks my dear!
Uma peça de Schubert, cachorros latindo, o crescimento urbano feito de abandono. O ambiente sonoro que envolve a cena de Matadouro é o mesmo que circunda a vida do criador Marcelo Evelin desde seu retorno ao Brasil. Com uma sólida carreira na Holanda e hoje um dos mais importantes nomes da dança brasileira, Marcelo está em cena fraccionado nos oito corpos que durante toda a peça musical correm sem ter onde chegar. Terceira parte da trilogia do artista sobre Os Sertões, de Euclides da Cunha, Matadouro é um corpo estranho e ao mesmo tempo conhecido. Uma peça de surpreendente simplicidade e potência em seu dispositivo cênico único, uma corrida, e seu figurino que ao mesmo tempo é nu e cheio de armaduras. Uma peça coreográfica sobre a precariedade e a violência, mas também sobre o afeto e a resistência na idéia de um Brasil onde as diferenças sirvam para nos fazer mais ricos, e não mais pobres.
Mas o programa mostra também um outro Marcelo, também fraccionado em vários, mas desta vez sozinho do palco. A remontagem de Ai, ai, ai, sua peça de exílio por excelência, testemunha a vertiginosa desconstrução e reconstrução de um artista. O solo foi criado em 1995, quando Marcelo vivia há muitos fora do Brasil e voltava pela primeira vez para se apresentar. É um ato de saudade, construído com todos os elementos bauschianos em que Marcelo se inseriu na Europa. Costurando tudo, um sentimento de desassossego, de ser extrangeiro lá e ignorado aqui, tanto em suas escolhas profissionais quanto pessoais. Tudo ao som de chorinho. Ver Marcelo vestir de novo seu Ai, ai, ai emociona porque ele o veste com o corpo de hoje e o reconhecimento em seu país (prêmio APCA, entre outros) que o coloca entre os grandes de sua geração.
Pina Bausch e Pixinguinha. Schubert e a favela. Dois momentos deste criador nordestino que olha o Brasil ao mesmo tempo de fora, como europeu que se tornou, e de suas entranhas, como sertanejo que jamais deixou de ser.
11 de junho de 2011 em 18:31
quando eu crescer quero escrever como a Nayse! texto claro, delicioso de ler e nem por isso raso. muito bom!