
Espetáculo é um conceito amplo, que tem uma estrutura mercadológica fortíssima, encabeçada pelos ditos mega-pop-shows. Nele a palavra entretenimento mostra-se evidente e problemática, pois o que prevalece são imagens aparentemente bem-sucedidas. Especificamente, o corpo é um elemento bastante falseado na mídia de consumo (ou consumo da mídia); e é na dança que este corpo submisso mostra-se preocupante também nas ditas artes cênicas. Como fazer de tudo isso uma boa reflexão?
Espetáculo, do Núcleo Dirceu (Teresina-PI), em cartaz agora no Espaço Trilhos, mostra, encena e até demonstra algumas dessas relações passivas do parecer-ser, um quase exercício de desespetacularização que não se completa porque faz desse ato outro espetáculo. Os criadores – Elielson Pacheco, Janaína Lobo, Layane Holanda e Cipó Alvarenga integrantes do Núcleo do Dirceu – transformam o “palco” e eles próprios em algo menos alheio à insistência/resistência do fazer dança e também algo mais crítico diante falsificação geral da arte de/para mercado.
Duas referências teóricas faz-nos ver que “corpo-mercadoria” e “corpo-espetaculizado” são duas boas questões para dialogar com este trabalho, que esteve em temporada de estréia na semana passada, de sexta-feira (13) até segunda última, no Galpão do Núcleo Dirceu, no bairro Dirceu, cuja pesquisa, nomeada de “Corpo Radiografado”, foi contemplada com o prêmio Funarte Klauss Vianna de Dança/2008 e o SIEC -Sistema Estadual de Incentivo a Cultura do Piauí/2009.
Guy Debord, em A sociedade do espetáculo, alerta-nos sobre a tirania das imagens e a submissão alienante ao império da mídia. Faz uma aguda critica a sociedade que se organiza em torno da falsificação geral da vida comum. Há que uma espécie de compulsão que diz respeito ao desejo pela fama e ao consumo excessivo. Uma máquina voraz que alimenta necessidades incessantes e a promessa de felicidade para sermos sempre “consumidores falhos”.
Seguindo esse pensamento crítico, Zigmunt Bauman, em Vida para Consumo, colabora ao nos mostrar como fomos transformados em mercadorias, que nos portamos como objetos de consumo. Ou seja, do processo de fazer consumir, de que somos o que consumimos, ultrapassamos tudo isso para um sermos a própria mercadoria. Ele remete, por exemplo, a hierarquização de clientes feita pelos insistentes e permissivos serviços de telemarketing num contexto maior que são as redes sociais na e pela internet.
Nesta segunda temporada, iniciada na última quarta-feira (18) e que finda hoje, às 20 horas, o coletivo dá ao publico teresinense uma boa oportunidade de confronto, de um rir de si mesmo e não só do outro, de ficarmos um pouquinho mais consciente ou menos alienados daquilo que é hoje a grande indústria dos espetáculos. Eles buscam questionar aquilo que os fundamenta: estar no palco.
Mas que palco é esse? Que palco pode ser esse? Trata-se de um sintoma que, noutro momento, podemos até retomar historicamente. Cabe aqui outro movimento reflexivo: estamos cansados de produzir espetáculos do mesmo modo? Digo melhor, como romper as cartilhas de um mercado contemporâneo de dança, arriscar a partir daquilo que nos é habitual.
Fazer um espetáculo, “contemporaneamente” falando, é um desafio para qualquer artista de dança atento ao mundo que ele também faz parte. Envolve um ato rotineiro de escolher para chegar a algo minimamente comunicável. Na obra em discussão, o desafio complexifica-se e eis que passamos a questionar estruturas postas, modos de fazer habituais etc e tal. É um exercício de metalinguagem necessário como um bom indício de que nem tudo está anestesiado, ou mesmo já conta como um grito de alerta: não aguentamos mais! Ou aguentamos?
Joubert Arrais é artista-pesquisador e crítico de dança. Atualmente faz parte do grupo de artistas residentes pelo Projeto Colaboratório 2010. Outros diálogos no enquantodancas.blogspot.com .
Referências consultadas:
BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação de pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Comentários sobre a sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1998.
22 de agosto de 2010 em 20:00
joubert
obrigada!
muito legal o texto, gostei. me fez pensar em m ais um monte de outras coisas…
23 de agosto de 2010 em 1:29
Me chama a atenção: “um quase exercício de desespetacularização que não se completa porque faz desse ato outro espetáculo.”
Me fez pensar nas conversas que nos 4 já tivemos sobre uma maneira de fazer, de performar o trabalho, nas layers de representação… enfim. Me fez pensar que ainda tem coisa aí pra aprofundar.
Obrigada Joubert pelo olhar e pelas referências.
Vamo continuar trocando idéia.
23 de agosto de 2010 em 9:58
Que bom ver aqui outras palavras, outro olhar.
Suas palavras reconfiguram minha maneira de olhar a cena do ESPETÁCULO, que vai se transformando a cada sessão.
As questões sobre espetacularização também estão me cutucando.Mercado.Consumo.Capitalismo.
Como fazer? Ou refazer a comunicação para não repetirmos nós mesmos? Quem paga pra ver o show? Sou mais um produto competindo na contra-mão?…
Valeu Joubet!
28 de agosto de 2010 em 12:49
Olá Janaina, Layane e Weyla
Desculpe só agora dá um feedback do feedback.
Seguinte, as referencias nos ajudam a fazer ver para pensarmos se ainda temos o “montar um espetáculo” como lugar/contexto/situação de subversão.
Em relação a cena final, bom atentar que é necessário testar mais possibilidades para esse amarrar o outro, amarrar-se no outro, com o outro. Os machucados são indicios, testem mais e se machuquem mesmo, por favor.
bjo e obrigado pela oportunidade.
28 de agosto de 2010 em 14:05
Pois é Joubert, eu acho que ainda estamos nesse ajuste, porque falar de espetáculo, e subeverter a lógica, os códigos, a idéia de perfomatividade e representação é dificil mesmo. Por mais que seja claro em termos de discurso/conceito, a manipulação disso, “o como” isso acontece no corpo é um lugar muito instável, quando eu me distraio perdi…
O final mudou já. Cê não viu né?? Foi muito bom poder fazer 10 apresentações bem próximas, porque é como cozinhar mesmo, você vai testando a comida ainda no fogo.
bjao e brigada.
1 de setembro de 2010 em 17:55
seus espetacuro foi muito bom e eu gostei muito parabens
1 de setembro de 2010 em 17:56
eu gostei muito do seus espetacuro parabens