Para quem acompanha de longe, uma breve contextualização de como as coisas funcionam por aqui:
2003: Festival Interartes, realizado em São Raimundo Nonato no Parque Nacional Serra da Capivara. A coreógrafa Lina do Carmo propõe linkar ancestralidade à contemporaneidade, cruzando por meio de espetáculos, mostras de vídeo, oficinas, dentre outras atividades, artistas do brasil e do mundo com o público e artistas locais no interior do Piauí. Na programação Luiz de Abreu apresenta “Samba do Criolo Doido” , solo que reflete o modo como a política, a cultura e a sociedade olham e pensam, entre outras coisas, o negro. Diante do público – e da primeira fila de políticos, autoridades e organizadores – o artista enfia a bandeira do brasil no cú. Após muita polêmica, pronunciamentos e mobilizações o evento é cancelado em sua segunda edição.
2005: Ano pitoresco, o Sushi chega a Teresina. Por aqui se torna chique comer peixe crú.
2006: Com a abertura de um teatro Municipal, surge em Teresina um coletivo de artistas (sim, nós). Sob coordenação do Marcelo, profissionais de múltiplas áreas estão à frente do Centro de Criação do Dirceu. O projeto possuía um conjunto de ações entre oficinas, residências artísticas, projetos de formação de plateia, produção de espetáculos e pesquisa de linguagem funcionando em intercâmbio constante com artistas do Brasil e do mundo. Após mudança brusca de governo e diante de uma gestão fechada ao dialogo, com diretrizes xenofóbicas, o grupo de artistas pede demissão coletiva. Conceito ( e ações) do Centro de Criação do Dirceu deixam de existir, projetos e atividades são suspensos e o Teatro segue funcionando como casa de espetáculos.
2010: A Licenciatura em Educação Artística é finalmente extinta por aqui abrindo vaga para graduações em Artes Visuais e Design em Moda nas faculdades de Teresina. O circuito é impulsionado por jovens artistas visuais, principalmente na área do grafite e da ilustração, o mercado local bomba no segmento Design Gráfico. Acontece o Fórum 1 Minuto para a Dança e a articulação para uma graduação nessa área toma força em Teresina. Começa-se a se desenhar a possibilidade da primeira Bienal de Artes Visuais do Piauí com uma série de encontros, conversas e palestras encabeçados por Gustavo São Jorge. Diferente dos mornos anos 90, pela primeira vez uma geração de estudantes, educadores, pesquisadores, artistas toma fôlego numa articulação “conjunta”, redesenhando o cenário local. Muita gente se anima ó, mas tudo depende das oscilações do cenário político.
2011: Nas redes sociais o caso Marauê (leia aqui) toma proporções gigantescas na bairrista Teresina. Mesmo sendo consensual que muitos de nós pode ter razões suficientes para nomear esse lugar como o cú do mundo (seja lá quais forem), alguém que não é “daqui”, um “estrangeiro ameaçador” REPETE essa comum expressão. Em meio ao cl-amor popular a Assembléia Legislativa do Estado se posiciona diante da INFELIZ colocação do ator. Proíbe seu espetáculo, exercendo o poder e o controle, e dexando muito claro “o quê se pode ou não falar, e fazer, por aqui nesta cidade”.
Ainda 2011: É lançado o fórum da I Bienal de Artes Visuais do Piauí e somos convidados a participar da programação do evento. MONO (Marcelo Evelin/demolition. Inc + Núcleo do Dirceu) é cancelado cinco dias antes da apresentação e retirado da programação sem maiores explicações. A diretoria do Museu do Piauí não se pronuncia sobre o assunto, ou mesmo, a Fundação Cultural do Estado. O que chega até nós são rumores de corredores, intrigas e articulações políticas de cargos, chiliques e acusações. Censura? Tabu?
Mais uma vez a relação com esta cidade. Mais uma vez o difícil exercício de furar…furar…
Sabe o que linka essa rápida retrospectiva histórica? Simples: por aqui a política cultural ainda é a do “cala a boca”. Não gostou? Não é amigo? Vai querer desse jeito nao…? tem quem queira…. Não concorda? Faz um favor, manda parar, acaba, termina lá…. e claro sutilmente, sem alarde, de maneira elegante. Façamos outra coisa, ou simplesmente não façamos. Porque Teresina é podre de chique.
Não se trata de um caso isolado, não é sobre uma ação específica. O incêndio criminoso no prédio da Secretaria de Saúde, local, onde funcionava a controladoria geral do estado, salas onde papeladas importantes que passariam por uma audição entraram em combustão, só reforça essa lógica. Nesta semana a menina que conhecia gente importante e foi morta ainda é caso sem resposta. O assunto parece não ter fim, mas não é suficiente frente a tentativa cara de pau de abafar mais essa circunstância.
Por aqui se convive bem, apesar do leve desconforto, com tudo que pode ser trivialmente desligado, exterminado, finalizado, cancelado, deletado, interrompido, impedido, eliminado.